quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O que é um Pontinho Minúsculo Dentro de Outro Pontinho Minúsculo?

Caras, estou começando a me encher do ócio. Me matriculei em uma escola de música, para aprender a tocar piano, e a semana ficou longa demais, demora demais para chegar o dia do curso. Se fosse em qualquer outra época eu provavelmente nem notaria a semana passar, talvez esquecesse de ir no curso, mas nas férias isso não é possível. Estou empolgado com o curso, e isso fica ainda mais em evidência por eu não ter mais nada (ou quase nada) com o que ficar empolgado.
Vendo o professor tocar, acabei por finalizar um processo de mudança de conceito que já vinha tomando espaço na minha cabeça desde que eu me aproximei mais da música. Agora eu sei que não quero apenas saber tocar, mas quero saber usar o instrumento como se fosse uma mera extensão da minha vontade, com o intuito único e grandioso de não apenas me aprazer com a música, mas me aprazer com o fato de que eu que estou produzindo os sons que estão agradando os meus ouvidos.
Digo isso para sentirem o quanto estou sem nada com o que pensar. Quando um cara sério como eu (?) tem tempo para pensar e conseguir entender as próprias emoções a ponto de expressa-las tão poeticamente como eu fiz no parágrafo anterior, é por que a situação ta preta mesmo. Isso pode não ser uma regra geral, até por que regras gerais não existem, tudo é uma grande exceção (viram? Poetizando tudo...), mas se aplica a mim no momento.

Eu estava esses dias, em um desses dias calorentos e bafentos que foram cometidos aqui (sim, “foram cometidos”, por que dias como aqueles devem ser considerados crimes, não meros acontecimentos banais), e fui pra cozinha tomar água, como tenho feito alguns milhares de vezes ultimamente. Peguei a garrafinha com o líquido que, mesmo sem ter gosto, em um dia como aquele agradava tanto o paladar quanto uma galinha escabelada (requeijão no fundo, seguido de uma camada de galinha, uma de queijo para tampar a galinha e uma de batata palha, para terminar o prato e justificar o nome pouco ortodoxo) o agradava em uma gelada noite de sexta no inverno, e me parei em frente à janela da cozinha que dá para o quintal dos fundos. Primeiramente, estranhei alguma coisa, mas não tinha certeza do que era. Então parei para analisar as coisas: o céu estava um pouco maior do que de costume. Sim, eu sei que o céu tem sempre o mesmo tamanho, mas visto da janela da minha cozinha, o azul do céu não é tão significante quanto seria de esperar de algo que cobre (do lado de fora da casa), metade da visão, do horizonte pra cima.
Mais alguns milissegundos de observação e notei a causa de tamanha algazarra no setor de novidades do cérebro: uma árvore foi cortada no vizinho de trás, e onde estava antes o verde das folhas agora encontravam-se outras coisas, desde o azul do céu, que me chamou a atenção no início, até casas, lá longe, no morro, que eu nunca tinha visto por esse ângulo.
Nada demais, com certeza. Eu nem iria me lembrar disso, não fosse por ter o blog, que abre portas para novas reflexões no dia-a-dia mais do que muitas outras coisas. Mas mesmo que eu não tivesse esse tino para coisas insignificantes, o “susto” de ver azul além do normal não seria evitado. Por que quando uma pessoa passa quinze anos indo até a janela da cozinha para tomar água e pensar em coisas corriqueiras e se acostuma a ver uma árvore, a escutar os passarinhos nela, e uma vez ou outra, ver os maconheiros fumando coisas no telhado parcialmente escondido pela árvore, e do nada tudo isso vira lembrança, não é uma coisa que possa passar despercebida pela mais insensível das criaturas. Ainda mais quando os quinze anos em questão são a vida toda da pessoa.
Isso porque o cérebro humano é altamente condicionável. O costume é muito importante, neuralmente falando. Quando do tipo bom, nos faz fazer atividades naturalmente, sem o esforço do pensamento. Quando do tipo ruim, nos faz não perceber certas coisas. Quebra-lo estimula sinapses neurais e evita o Alzheimer, e no fim deixa o cérebro mais saudável.
Essa capacidade de mudar as lembranças já guardadas, isto é, a capacidade de assimilar que uma árvore foi cortada e em seu lugar agora há uma visão mais ampla, está por trás de grandes e importantes características dos seres humanos. É isso que possibilita a nós: aprender a tocar piano, aprender novas línguas, lembrar do número novo do celular de um amigo, e várias outras, das quais “poder ficar tão inteligente quanto qualquer um, não importa o que os genes digam” não é a mais importante.
A aprendizagem modifica-nos, melhora-nos, nos faz diminuir um pouco o abismo que nos separa do que quer que seja para o qual temos potencial. Não importa a situação, nós nos acostumamos a ela, e logo ela nos é natural mais uma vez. O cérebro é novidadeiro, gente.
Este tipo de visão sobre nós, quer dizer, analisar o bicho homem como um animal não diferente dos outros, pode parecer triste para alguns, por desmistificar um pouco a idéia de que o homem é importante. Não é importante não, só somos uma mera ameba vivendo nas encostas suaves de um grão de areia, e esse grão de areia está numa praia gigante, situada em um mundo maior ainda. E essa é ainda uma visão otimista das coisas. Por que na verdade uma visão da verdade, uma perspectiva real da importância da gente no cosmo, não nos cabe. Nossas mentes fracas, que foram produzidas em um mundo de coisas médias, que passaram por eventos históricos aparentemente grandiosos, e que chegaram aos dias atuais com essa idéia fixa de importância, não foram feitas para entender o Tudo. Não foram feitas para terem perspectivas reais sobre algo. Uma “prova” disso, se é que me é permitido chamar assim, é que mesmo que saibamos que é o que acontece, somos naturalmente compelidos a rejeitar a idéia de que uma pluma e uma bola de chumbo caem com a mesma velocidade no vácuo. Isso por que nós não nascemos no vácuo, e onde nascemos uma pluma, quando cai, e se cai, cai muito vagarosamente. A bola de chumbo não, não interessa o vento, ela cai tão rápido quanto pode e, não raro, esmaga o nosso dedão.
Mas enfim, o fato de não sermos nada mais que um amontoado de moléculas orgânicas, que, por sobreposição de complexos mecanismos, e sobreposição de sobreposições de complexos mecanismos, pensam que pensam, diminui o fascínio que temos que ter por estarmos aqui levantando essas questões? Eu acho que não.
Essa é a mensagem que tenho hoje: a complexidade do universo, a nossa complexidade, isso tudo é fascinante, por ser o que é. Todos fariam bem em ver isso, e experimentariam de momentos agradáveis e sublimes de reflexões sobre isso tudo se o fizessem.

De qualquer modo, deixo aqui o meu pedido de desculpas por mais esse post longo (isso se alguém de fato chegar tão longe para ler esse pedido de desculpas), mas é que meus dedos são cada vez menos domesticáveis.

Um abraço a todos!

“Não hesitaria um segundo em trocar o maravilhamento da ignorância pelo maravilhamento da compreensão” – Douglas Adams

4 comentários:

Candy disse...

kkkkkkkkkkkkk
Cheguei a uma conclusao: vc PRECISA voltar as aulas!
uahuahauhaha

*nao to dizendo que as reflexoes sao ruins... mto pelo contrario.
Mas isso só acontece em duas situações: na mesa do bar ou no ócio!
kkkkkkkkkk

Ah, antes que eu esqueça: Vc é o anticristo!
hahahaha

beijooooo

Kari disse...

É por isso que eu resolvi fazer jornalismo... Porque fala sobre coisas simples e não precisa viajar tanto assim usando tanta química, física ou pscicológico como tu fez nesse texto...

Ô Marquinhos... O Carnaval já tá chegando e assim, as aulas também... Já já tu volta e não vai precisar refletir tanto sobre a vida.... hehehehehehehehehhehehe

Beijão pra tu!

Marcela ツ disse...

Ooooou coração!
Vim conhecer seu canto novo! Que tudo!
Adorei!
saudades de vc... que bom que continua blogueiro!
Boa semana, viu?
BEeeijo

Antônio disse...

Tá, confessa: tu era um dos que fumavam maconha no telhado quando ainda existia a tal árvore, e essa reflexão surgiu num dia de total viagem após fumar um baseado, né?
Se não é isso, que alucinógeno tu usou pra escrever tudo isso? E mais, andou lendo o livro que te emprestei, é?
"Sinapse"? Isso nem nos textos do David Coimbra eu leio, cara!

Abraço!