terça-feira, 15 de março de 2016
Profecias e zonas de conforto
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
O fim e o recomeço
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Destino
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Fogo nos Olhos
As discussões sobre direitos e igualdades entre os homens são sempre eventos interessantes e estimulantes, como a maior parte das discussões filosóficas. Mas, por outro lado, e ainda como a maior parte das discussões filosóficas, elas podem levar a alguns becos sem saída, algumas verdades que comem o próprio rabo (também conhecidas pelo nome musical “paradoxo”) e outras coisas que devem ficar uma maravilha na feijoada.
Todos concordam que ninguém é mais do que ninguém, que todo mundo deve ser tratado igual, que somos todos iguais e que julgar os outros é errado. Isso é uma verdade universal, veio escrita na pedra e todos devem aceitar.
A hipocrisia, é claro, é um mal humano e também devemos aceitá-lo. Eu sempre tentei não julgar ninguém, sempre esperar o melhor das pessoas e de um modo geral pressupor que todos que eu não conheço são pessoas interessantes. Mas não dá, não sei se porque eu sou muito cricri e vou ser um velho solitário que só conversa com as enfermeiras no asilo, ou se porque a maioria das pessoas é desprezível mesmo, mas é dessa forma que as coisas me parecem agora: algumas pessoas simplesmente não estão conectadas ao mundo como as outras. Algumas pessoas tem aquela centelha nos olhos, a fagulha de consciência que demonstra que ela está funcionando em ressonância com os demais ao redor.
Essa coisa sutil de que falo é um sentimento que às vezes tenho em relação a algumas pessoas. Não se trata apenas de inteligência, ou apenas de esperteza, ou apenas de consciência*; essas pessoas são aquelas que têm uma boa conversa, que dão a impressão de terem sido crianças curiosas (e, por isso, terem crescido com essa característica). Elas estão em equilíbrio entre o mundo de cá, que todos partilhamos, e o mundo de lá, que é de cada um de nós separadamente. Ou o mundo de fora e o de dentro, depende o ponto de vista.
As pessoas que não tem essa faísca no fundo dos olhos são as “outras”. Não tenho vocabulário para expressar o que acho exatamente delas. É só que simplesmente elas parecem ser personagens fracos de uma novela escrita por um amador; são puramente reativas, suas ações podem ser facilmente previstas a partir dos estímulos que recebem; são aquelas que são sempre manobradas** nas discussões.
Ter que lidar com gente assim é uma das coisas que me enfudece a paciência, mas isso é assunto para outro post.
Eu me sinto um pouco mal por pensar assim – me impaciento com as pessoas “apagadas”, porque acho uma afronta pessoal elas passarem pela vida tão a passeio, e porque não me sinto superior o suficiente para simplesmente ignorá-las – mas não consigo evitar. E isso também pode vir em outro post.
Acho que já desabafei o que estava querendo escorrer pela orelha. Olhar o horário político me faz pensar muito na natureza humana e, entre outras coisas, me assustar com o quanto algumas pessoas se esforçam para serem vermes. Espero ter passado bem a ideia da centelha, é algo que me acompanha já desde antes do horário político.
Abraço!
*A consciência que falo aqui é aquela de se estar presente quando se está fazendo algo. Talvez não o tempo todo, porque em alguns momentos nos obrigamos a fazer algo mecanicamente; mas (e isso também me deixa puto) determinados indivíduos parecem viver a vida inteira no piloto automático.
**Essa manobra não quer dizer que eles têm a vontade manobrada. Quero significar aquelas pessoas que ou nunca mudam de opinião ou nunca têm uma opinião. Os “café-com-leite” que ninguém leva realmente a sério, cujos insultos ninguém acata, cuja ausência ninguém lamenta.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Mais um
Pessoal, amigos, parentes, cachorrinhos, vendedores de desodorante, fabricantes de ventilador: que calor que faz nesse fim de ano, e, ainda, que rápido passou esse ano!
Passou outubro, e logo em seguida Novembro não passou, simplesmente voou. Talvez o sentimento de expectativa pelo meu aniversário tenha ajudado, ou uma alteração estrutural da forma como o tempo se comporta em relação à matéria, em âmbito quântico e prático... mas daí seria muita canalhisse de Deus, e ele deixou de ser canalha depois do Novo Testamento. Logo, novembro passou rápido por causa do meu aniversário.
E foi bom. Eu gosto de ser amado, de ter a sensação de que as pessoas gostam de me ter por perto. Já dizia Schopenhauer (citando alguém que eu não lembro agora ao certo quem era, mas era alguém importante, então por favor respeito aí com os dinossauros da Filosofia) que uma vida feliz é aquela que, em análise fria e racional, é absolutamente preferível em relação à inexistência. O que, torcendo um pouco a idéia, dando umas ajustadas e cuspindo pra dar polimento, pode ser usado no sentido de que se alguém prefere sua companhia à sua ausência, é por que ela gosta de você, e isso é precisamente o que eu gosto de sentir. Carência pra caramba, a rodo.
E não sou como algumas pessoas, que fazem de tudo para não serem notadas no dia do seu aniversário. Se eu percebo que alguém não lembra que é meu aniversário, eu dou a idéia sutilmente, pergunto que dia é hoje e tal, mas se ainda assim ela não se liga, eu não desisto e digo na lata “hoje é meu aniversário, não quer me dar parabéns?”. Ninguém resiste a uma cara de pau dessas, e acabam dando parabéns.
Mas então, só postei hoje para informar ao mundo que eu me sinto bem, estou vivo, ainda respirando, lendo bastante, estudando algo bem próximo do que dizem ser o suficiente, e o mais importante: agora eu já entro na maior parte das boates que antes eu não sabia nem a cor de dentro.
Continuo sem saber a cor de dentro desses lugares, mas só o fato de saber que eu tenho a possibilidade legal de conhecê-los, já é o suficiente.
Um abraço!
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Post Quase Cultural
Há muito tempo que não comento livros aqui nesse espaço, e não vai ser hoje que eu vou comentar, é claro. Preguiça de elaborar uma resenha que seja legal, e se eu fizer com preguiça, não fica bom. Certas coisas só devem ser feitas se forem bem-feitas, e isso (hoje) é uma delas.
Então, descartada a possibilidade de eu comentar livros aqui, é provável que mais pessoas cheguem ao fim deste texto, e não desistam na metade ou antes. Não os leitores de sempre; esses, eu sei, lêem os meus textos até o fim. Se por que gostam do texto ou por que gostam de mim, já é uma questão metafísica demais para o momento.
Em lugar de resenhas, então, vou falar de literatura, pelo menos a parte da literatura que também faz parte da minha vida, então o que tiver daqui pra diante no post é a intersecção entre a literatura e o meu Eu de Hoje, filtrada pela minha (e de todos nós) incapacidade de descrever perfeitamente determinados fatos e circunstâncias. As idéias e a percepção de cada um são muito difíceis de serem expressadas, por manterem uma distância respeitável das mentes das outras pessoas*. O objetivo de todo escritor (alguns querem é ganhar dinheiro, mas os demais) é melhorar o modo como se traduzem idéias em códigos que as outras mentes, digo, pessoas possam entender, mesmo que tal entendimento não seja também tão fácil**, como vejo que o será esse parágrafo.
Mas enfim.
Comecei a escrever em um diário. Como o nome sugere, eu o faço todos os dias. Quando falho em um, no próximo eu duplico o tamanho, não por punição, mas por natureza. A abstinência me entusiasma sobremaneira e quando vejo lá se foram quatro páginas de caderno.
A idéia inicial de fazer o diário eu não sei. Os objetivos são vagos, e para cada pessoa eu teria uma resposta diferente. Por exemplo, se o Amigo Dos Desabafos me perguntar, eu digo que é por que assim eu vejo meus problemas por outro ângulo, e facilito uma possível resolução e amadurecimento.
Pro Amigo Neurocientista, eu digo que é para melhorar a memória (paradoxalmente, ao deixar registrado o que eu fiz, fica mais fácil de eu não precisar consultar os registros...). Pro Amigo Prático, eu digo que é apenas uma forma de melhorar a escrita, e o faço escrevendo um diário por causa do motivo que eu diria para o Amigo Loucão.
Pro Amigo Loucão, eu digo que é por que eu sinto uma necessidade grande às vezes de deixar escorrer as idéias que eu tenho na cabeça para o papel, passando pela escrita. Simplesmente minha cabeça não cala a boca, me deixa hiperativo, meio na lua e, em casos extremos, com insônia. Por essas idéias uivantes serem ou idiotas ou complexas demais (ou ambas), eu não sinto vontade de postá-las no blog. Como grande parte das idéias que eu tenho são desse ou daquele grupo, fica difícil eu conviver comigo mesmo sem deixar isso em algum lugar.
Todos os motivos são reais. E a idéia de que pouca gente entenderia se eu explicasse tudo, achando estranho que eu tenha mais de um motivo para fazer algo, é o tipo de coisa que eu deixo pra escrever no diário. Isso e * e **.
Outra parte da intersecção de que falei no início, é uma mais literária mesmo. Semana que vem eu participarei de uma feira do livro aqui na minha cidade, graças a minha participação na Antologia Solarium, sobre a qual eu falei em um passado remoto. Eu vou conversar lá com turmas de 5° e 6° ano sobre leitura e sobre escrita. Quando me perguntaram se eu topava participar eu pensei “Se eu gostaria de participar de uma feira do livro, onde eu vou falar sobre duas das coisas que eu mais sou apaixonado? Por acaso macacos gostam de bananas?”. Aceitei, claro, hehehe.
As turmas que eu falei também lerão o meu conto, e parte da conversa será sobre ele. Estou muitíssimo entusiasmado, e acho que será bastante válida a experiência. Depois de ocorrido a dita feira, eu conto como foi.
Um último ponto importante na intersecção (bem no meio da intersecção: o ego). Recentemente eu recebi o que geralmente se chama de elogio pelo blog. Mas eu diria mais, foi praticamente uma declaração de amor incondicional (exageropontocom), hehehe. Eu gostaria de dizer que se o prazer que as pessoas tem em me ler for metade daquele que eu tenho em escrever pra elas, essas pessoas já tem o equivalente moral de um orgasmo, ;)
Um abraço forte!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O que é um Pontinho Minúsculo Dentro de Outro Pontinho Minúsculo?
Vendo o professor tocar, acabei por finalizar um processo de mudança de conceito que já vinha tomando espaço na minha cabeça desde que eu me aproximei mais da música. Agora eu sei que não quero apenas saber tocar, mas quero saber usar o instrumento como se fosse uma mera extensão da minha vontade, com o intuito único e grandioso de não apenas me aprazer com a música, mas me aprazer com o fato de que eu que estou produzindo os sons que estão agradando os meus ouvidos.
Digo isso para sentirem o quanto estou sem nada com o que pensar. Quando um cara sério como eu (?) tem tempo para pensar e conseguir entender as próprias emoções a ponto de expressa-las tão poeticamente como eu fiz no parágrafo anterior, é por que a situação ta preta mesmo. Isso pode não ser uma regra geral, até por que regras gerais não existem, tudo é uma grande exceção (viram? Poetizando tudo...), mas se aplica a mim no momento.
Eu estava esses dias, em um desses dias calorentos e bafentos que foram cometidos aqui (sim, “foram cometidos”, por que dias como aqueles devem ser considerados crimes, não meros acontecimentos banais), e fui pra cozinha tomar água, como tenho feito alguns milhares de vezes ultimamente. Peguei a garrafinha com o líquido que, mesmo sem ter gosto, em um dia como aquele agradava tanto o paladar quanto uma galinha escabelada (requeijão no fundo, seguido de uma camada de galinha, uma de queijo para tampar a galinha e uma de batata palha, para terminar o prato e justificar o nome pouco ortodoxo) o agradava em uma gelada noite de sexta no inverno, e me parei em frente à janela da cozinha que dá para o quintal dos fundos. Primeiramente, estranhei alguma coisa, mas não tinha certeza do que era. Então parei para analisar as coisas: o céu estava um pouco maior do que de costume. Sim, eu sei que o céu tem sempre o mesmo tamanho, mas visto da janela da minha cozinha, o azul do céu não é tão significante quanto seria de esperar de algo que cobre (do lado de fora da casa), metade da visão, do horizonte pra cima.
Mais alguns milissegundos de observação e notei a causa de tamanha algazarra no setor de novidades do cérebro: uma árvore foi cortada no vizinho de trás, e onde estava antes o verde das folhas agora encontravam-se outras coisas, desde o azul do céu, que me chamou a atenção no início, até casas, lá longe, no morro, que eu nunca tinha visto por esse ângulo.
Nada demais, com certeza. Eu nem iria me lembrar disso, não fosse por ter o blog, que abre portas para novas reflexões no dia-a-dia mais do que muitas outras coisas. Mas mesmo que eu não tivesse esse tino para coisas insignificantes, o “susto” de ver azul além do normal não seria evitado. Por que quando uma pessoa passa quinze anos indo até a janela da cozinha para tomar água e pensar em coisas corriqueiras e se acostuma a ver uma árvore, a escutar os passarinhos nela, e uma vez ou outra, ver os maconheiros fumando coisas no telhado parcialmente escondido pela árvore, e do nada tudo isso vira lembrança, não é uma coisa que possa passar despercebida pela mais insensível das criaturas. Ainda mais quando os quinze anos em questão são a vida toda da pessoa.
Isso porque o cérebro humano é altamente condicionável. O costume é muito importante, neuralmente falando. Quando do tipo bom, nos faz fazer atividades naturalmente, sem o esforço do pensamento. Quando do tipo ruim, nos faz não perceber certas coisas. Quebra-lo estimula sinapses neurais e evita o Alzheimer, e no fim deixa o cérebro mais saudável.
Essa capacidade de mudar as lembranças já guardadas, isto é, a capacidade de assimilar que uma árvore foi cortada e em seu lugar agora há uma visão mais ampla, está por trás de grandes e importantes características dos seres humanos. É isso que possibilita a nós: aprender a tocar piano, aprender novas línguas, lembrar do número novo do celular de um amigo, e várias outras, das quais “poder ficar tão inteligente quanto qualquer um, não importa o que os genes digam” não é a mais importante.
A aprendizagem modifica-nos, melhora-nos, nos faz diminuir um pouco o abismo que nos separa do que quer que seja para o qual temos potencial. Não importa a situação, nós nos acostumamos a ela, e logo ela nos é natural mais uma vez. O cérebro é novidadeiro, gente.
Este tipo de visão sobre nós, quer dizer, analisar o bicho homem como um animal não diferente dos outros, pode parecer triste para alguns, por desmistificar um pouco a idéia de que o homem é importante. Não é importante não, só somos uma mera ameba vivendo nas encostas suaves de um grão de areia, e esse grão de areia está numa praia gigante, situada em um mundo maior ainda. E essa é ainda uma visão otimista das coisas. Por que na verdade uma visão da verdade, uma perspectiva real da importância da gente no cosmo, não nos cabe. Nossas mentes fracas, que foram produzidas em um mundo de coisas médias, que passaram por eventos históricos aparentemente grandiosos, e que chegaram aos dias atuais com essa idéia fixa de importância, não foram feitas para entender o Tudo. Não foram feitas para terem perspectivas reais sobre algo. Uma “prova” disso, se é que me é permitido chamar assim, é que mesmo que saibamos que é o que acontece, somos naturalmente compelidos a rejeitar a idéia de que uma pluma e uma bola de chumbo caem com a mesma velocidade no vácuo. Isso por que nós não nascemos no vácuo, e onde nascemos uma pluma, quando cai, e se cai, cai muito vagarosamente. A bola de chumbo não, não interessa o vento, ela cai tão rápido quanto pode e, não raro, esmaga o nosso dedão.
Mas enfim, o fato de não sermos nada mais que um amontoado de moléculas orgânicas, que, por sobreposição de complexos mecanismos, e sobreposição de sobreposições de complexos mecanismos, pensam que pensam, diminui o fascínio que temos que ter por estarmos aqui levantando essas questões? Eu acho que não.
Essa é a mensagem que tenho hoje: a complexidade do universo, a nossa complexidade, isso tudo é fascinante, por ser o que é. Todos fariam bem em ver isso, e experimentariam de momentos agradáveis e sublimes de reflexões sobre isso tudo se o fizessem.
De qualquer modo, deixo aqui o meu pedido de desculpas por mais esse post longo (isso se alguém de fato chegar tão longe para ler esse pedido de desculpas), mas é que meus dedos são cada vez menos domesticáveis.
Um abraço a todos!
“Não hesitaria um segundo em trocar o maravilhamento da ignorância pelo maravilhamento da compreensão” – Douglas Adams
