Nunca fui muito fã de nada, quero dizer, nunca fui daqueles fanáticos xiitas que amam alguém ou algo acima de tudo, que pintam o rosto com as cores do time, que tem cartazes de bandas ou que se vestem como os ídolos da tevê se vestem. Talvez nunca fui um desses pelo medo de não ter opinião própria e, paradoxalmente, não ter opinião nenhuma. Por exemplo, eu li muitas vezes Harry Potter, todos livros da série, até chegar a saber a história de frente pra trás, de trás pra frente, da metade pra diante, enfim, mas não me sentia bem sabendo que outros 300 milhões de fãs também o faziam, de forma que quando alguém ficava sabendo que eu gostava de Harry Potter achava que eu o fazia por que era modinha.
Daí eu deixei de ser fã, até por que eu lia outras coisas, abria a mente, ao contrário de muitos fás por aí que usam aquelas coisas de cavalo que eu nunca lembro o nome, muito coerentemente, aliás. Mas daí também tive de tomar o cuidado de não entrar na modinha de “não gostar de HP”, como existem pessoas que fazem, por que, afirmam, é coisa de criança, não é literatura de verdade, “é um lixo”. A esses o mundo os rotula de pseudointelectuais, e não existe adjetivo que mais me afeta que esse, me sinto um lixo quando alguém insinua algo assim para mim, me sinto pior que o cocô do cavalo do bandido de filme B.
Ora, e aí me encontro em mais um daqueles paradoxos cotidianos em que muitos se encontram, mas poucos tem a coragem (coragem?, eu quis dizer ousadia, loucura, falta de bom senso) de comentar isso com outras pessoas, por que isso não é impessoal o suficiente, porque ao trazer esse tipo de loucura pro meio do diálogo é capaz de alguém perceber que não consegue entender o que o outro fala. E atestar a própria ignorância é algo que todos temem, inclusive eu, como dito no parágrafo anterior.
O paradoxo é o seguinte (nem tem paradoxo nenhum aí, se procurar atentamente não há uma verdade que morda o próprio rabo nem nenhuma lógica com realimentação perigosa): não tem como saber quem está com a razão em uma discussão; enquanto a outra pessoa não concorda com você, você tende a achar que essa pessoa ainda não entendeu a sua posição, e isso também pode ser abordado pelo outro lado, ou seja, você só não concordou com a pessoa com a qual está discutindo por que ainda não entendeu o ponto de vista dela. Pense em algo em que você discorda de alguém; se essa pessoa entendesse o seu ponto de vista, você acha que ela continuaria tendo uma visão diferente da Verdade?
Trazendo agora para o exemplo que eu dei, como sempre, mostrando que eu tenho uma péssima habilidade de exemplificar, e que no fundo eu só complico com as coisas (como era mesmo que o Chacrinha falava?). Existem os que gostam de Harry Potter (ou Crepúsculo), e existem os que acham que Harry Potter (ou Crepúsculo) é mau-escrito / idéia ruim / extremamente “feito para vender” / coisa de jovem / modinha. Ninguém, nunca, sob circunstancia nenhuma, no planeta Terra, ou pelo menos num Universo que tenha uma Lógica como a nossa, vai poder dizer quem desses dois grupos está certo. Os que gostam desses best-sellers dirão que os críticos não tem base o suficiente para criticar, que não sabem sobre o que estão falando, que são pseudointelectuais (deusolivre). Os que não gostam dirão que os fãs dos ditos livros bem vendidos são passivos do Sistema, que não sabem o que é um bom livro e que há algo errado nesse mundo capitalista consumista em que uma porcaria de roteiro como Crepúsculo vende.
Claro que se pode continuar avançando nessa helicóide (sempre avança em Y, passando pelos mesmos lugares em X, ou seja, aumenta a consciência mudando de lado da discussão várias vezes, no melhor estilo de “eu supunha saber que você sabia que eu pensava que você conhecia exatamente o quanto eu sabia que você tinha conhecimento sobre o que passava pela minha cabeça”), com um crítico voltando a hastear a bandeira do fanatismo, ou um fanático hasteando a bandeira da Crítica, sei lá.
Como sempre, não sei se fui tão claro quanto eu sempre pretendo ser; e não fui tão claro quanto é possível, fato. Gosto de botar as coisas como eu gosto de botá-las, e não como elas ficam melhor apreciáveis, por que esse modo nem sempre carrega o sentido que eu quero que carregue.
Para os muitos que acham que perderam cinco minutos da vida em um texto sem pernas nem cabeças (sim, no plural), uma mensagem puramente explícita (e muito mais simples que a mensagem até aqui): não leiam somente best-sellers; eles são bons, muitos são ótimos, alguns são só bons lances de mercado, mas a maioria presta; agora, se ater a eles e não ler nada além deles é no mínimo jogar fora a oportunidade de aprendizado e diversão que a vida é, com tantos livros bons a espera de serem lidos.
Um abraço!
PS: hora dessas eu escrevo sobre o que eu realmente queria escrever, e tento não sucumbir à tentação de prolongar o que era pra ser só um parêntesis na introdução, [risos].