segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Chamem o Greenpeace

“Ah, ócio!
Me crias bócio
Queria a última flor do lácio
Mas eu não posso
Que fracasso.”

Para citar um amigo poeta e minha atual situação. Toda a ação no orkut ainda é insuficiente para acalentar o meu espírito entediado. Não é possível que todos estejam desfrutando da praia, ou em algum lugar sem internet, ou seqüestrados pelas Farc, mas as vezes é isso mesmo que eu penso, dada a situação vazia do orkut e, não por acaso, da minha agenda. O ano passado me viciou em tarefas, em ocupações. Não sabia que isso iria continuar mesmo durante as férias. Pensei que não, que eu ia passar o tempo todo estirado na cama descansando os neurônios pro próximo round na escola, mas se o faço não é por cansaço, e sim por pura falta de algo melhor para fazer.
No início da semana fui lá eu pra minha dinda, passar o tempo, abstrair um pouco dessa minha rotinazinha mixuruca. Funcionou.
No caminho pra lá, especificamente no ônibus, entrou uma senhora calibre 2362 mais ou menos, que, como as leis da física e do olhômetro de qualquer um preveriam, entalou na roleta da passagem. Na hora do ocorrido eu estava distraído, olhando pela janela e pensando na diferença entre os liberais e os conservadores, que um amigo meu me ensinou pelo MSN, e só voltei à superfície do planeta Terra por que ouvi uma onda de risos indo desde perto do motorista até o fundão do ônibus.
Então, eis os pensamentos que me ocorreram nos segundos seguintes a eu notar a tia gorda presa lá na frente: “Ah, não, seis bilhões de pessoas no mundo e isso tem que acontecer no ônibus que eu estou usando!”, “Coisa triste isso acontecer com essa mulher, aposto que ela nunca mais vai no McDonalds depois dessa!”, e o último pensamento antes dos segundos que eu falei acabarem “Que falta de respeito dessa gentalha (gentalha!, gentalha!, pffff) rir dela... Pobre é bucha”.
Depois dos pensamentos, parei pra avaliar melhor a situação. A porta estava perto, então qualquer emergência (baleias encalhadas explodem por causa dos gases dentro do corpo, certo? Se não, o cheiro delas apodrecendo deve ser tão ruim quanto) era só escapulir por ela, nem que tivesse que abri-la a dentadas.
A mulher lá na frente tentava de todo jeito se mexer e nada, ela tinha se trancado de vez naquilo lá. Passados os cinco minutos iniciais de deslumbramento com a novidade, a pobraiada passou a parar de rir e lembrar do que o pastor falou-lhes na missa do final-de-semana, aquele papo de ter compaixão pelos menos afortunados e tal. Mais cinco minutos e eles notaram que no momento a senhora gorda (imensa!) era a pessoa menos afortunada da hora, e puseram-se a ajudar. Dois homens foram ajuda-la a se acalmar (um deles estava ajudando desde o início); uma moça estendeu uma água pra tia agonizante, pois essa última apresentava uma insalubre cor avermelhada, e não sabia-se ainda se era só de vergonha ou se ela estava sufocando mesmo; e o resto do pessoal “ajudou” dando a sua própria opinião. Todos ao mesmo tempo. Parecia reunião de família, todo mundo falando, cortando o assunto dos outros, discutindo a morte da bezerra e de quem ia ficar com a herança, essas coisas. Eu captei alguns dos discursos, e um deles até deu uma boa idéia para remover a coitada. Foi lá e passou-lhe a idéia e os votos de melhora de todos os passageiros que conseguiram cutucar ele para que ele passasse a mensagem. A idéia era a seguinte: ela mesma se segurar nos ferros de cima e se içar, para conseguir girar um pouco a roleta, e pôr fim ao seu sofrimento.
Mas não deu certo. Ela não se mexia de jeito nenhum. Nem pra frente, nem pra trás, nem pra cima, nem pros lados, nem diagonal direita superior, nada. Como não surgiam idéias melhores, todos (ao mesmo tempo ainda), começaram a fazer críticas de tudo, do transporte público, do governo, do Seu Norberto que saiu do BBB, do cobrador imbecil que “não sei como não viu que uma senhora daquele tamanho não passaria na roleta!”, esse tipo de reclamação.
E eu quietinho ali no meu canto. Só observando. Pensando que apesar do sufoco eu ia ter finalmente assunto pro blog. Para pelo menos uns parágrafos de um post. Desgraça de uns, alegria de outros, totalmente justificável. Quando chegou na minha parada, desci faceiro por deixar pra trás aquela situação. Entraram pessoas pelo lado que eu saí, por que lá na frente não cabiam mais seres viventes (sim, o motorista continuava pegando passageiros, por que, oras, não é qualquer coisinha que vai deixar de movimentar a roda capitalista, né).
Pelo que eu escutei antes de sair, eles iriam até o fim da linha e de lá pra garagem desmontar a roleta e retirar os restos mortais da tia. Se fosse circular, acho que iam rodar com ela lá até de noite, para só então tira-la. Suponho que ela passa bem, ela tinha pelo menos bastante reservas para o inverno.

Então, pessoal, é por isso que é importante comer devagar e ter uma dieta balanceada, fazer bastante exercícios físicos. Isso, e ter dinheiro e um carro para não precisar andar de ônibus.

Abraço!

5 comentários:

luiza disse...

bahhhhhhh, ese guri é um gênio!
como consegue tirar tantas informações, tantos detalhes, tantos pensamentos de um pequeno acidente?
hehehee
tirando o fato de ver a imagem de uma senhora um pouco avantajada em relação ao seu peso...
parabéns!

Kari disse...

Isso me lembrou de uma história que vi no jornal quando estava aí. Falando que pessoas obesas não são mais obrigadas a passar a roleta e as cadeiras vão ser mais apropriadas para eles. Inclusive um rapaz deu o depoimento que também ficou preso assim e só saiu quando foram para a garagem e a empresa toda se mobilizou para tirar a roleta de lá...

Caramba! Que situação! Coitada da moça... Depois dessa, acho que ela num vai mais andar de ônibus, tamanha a vergonha...

E aí, já acabou de ler Crepúsculo, Lua Nova e sei mais qual???

Beijão pra tu

Antônio disse...

Eu poderia responder pra Luiza que tuas amizades são excelentes fontes de inspiração pra escrever bem, mas vou me agarrar num ínfimo resquício de modéstia que me resta e ficar quieto.

Cara, tô com um grave defeito: preguiça de ler. Sei que tu nunca vai saber o que é isso, porque lê alucinadamente, e quando crescer quero puxar essa qualidade de ti.
De qualquer forma, li o primeiro texto e esse último.

Análise: estão excelentes, magnânimos. É incrível como tua escrita conseguiu melhorar tanto. Meus mais sinceros parabéns.

Também voltei à ativa e também estou curtindo um ócio puro, pelo menos até um emprego aparecer. Portanto, se quiser companhia pra fazer nada juntos, tu sabe meu telefone.

Abração!

Gabi disse...

cara! curti a história da tia! e adoro essa capacidade de ver nos absurdos do dia-a-dia histórias pra contar!

Tadinha... mas quem mandou, né? Já me imaginei nesse ônibus pensando (porque não teria coragem de sugerir) besuntar a tia com óleo...

Obrigada pelas tuas palavras lá no Mais... É tão bom quando a gente descobre que alguém no mundo, alguém que a gente não fazia menor noção de que existia, curte um pedaço da gente.

tô fã!
beijão

Victor disse...

ta bom, sei que vou bancar o chato sem senso de humor, mas...

eu, em grande parte, gostei do post. sei o que é estar numa situação em que todos ao seu redor decidem que é hora de regredir às cavernas em vez de trabalhar numa solução racional pro problema.

Mas daí relacionar essa ignorância com o fato de ser pobre, me desculpe, mas acho que é puro preconceito seu.

Estudar numa escola particular e evangélica me mostrou que covardia e babaquice independem de situação financeira. Garanto que muita gente com quem já estudei, e que vai todo dia de carro pra escola, teria saído desse ônibus sem nem lembrar o que um certo carinha que nós pregamos num pedaço de madeira 2000 anos atrás, dizia sobre sermos legais uns com os outros só pra variar.

Desculpe pelo tom crítico. Não estou nem dizendo que não gostei do post. Só discordo dessa associação que vc fez.

Abraços!