terça-feira, 15 de março de 2016
Profecias e zonas de conforto
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Modinhas
Que mundo feliz seria um em que quem lesse esse título não entendesse de primeira sobre o que eu quero falar. Os mais vividos talvez pensaram naquelas musiquinhas, cantigas cantadas com violão e tal, da infância, mas os mais urbanos sabem que me refiro a algo mais atual. As modinhas são essas idéias (memes, diria Richard Dawkins) que pegam rápido, e que logo desaparecem, mas não sem antes deixar alguns estragos cerebrais pelo caminho.
O exemplo mais antigo de que lembro é Harry Potter. Eu mesmo fui e sou um fã ardoroso da série, mas só posso responder por mim, que sei que li a série do bruxo adolescente e que gosto dela não apenas porque o resto do mundo também gosta, mas porque gosto do ritmo de leitura dela e porque a escritora de fato escreve bem. A maioria dos fãs, no entanto, não leu por causa disso; leu porque virou moda ler Harry Potter.
Mais tarde, ainda me detendo ao âmbito literário da coisa, a série chegou ao sétimo livro e acabou. Os editores mais espertos perceberam a óbvia vaga de nicho que a série deixou ao abaixar os 200 graus de febre, e vieram numerosas tentativas de atingir novamente o público-alvo, dos quais o relançamento daquele livro sobre um bruxo de óculos que tem uma coruja (só que esse voa em um skate; acho que é Livros da Magia, *ACHO*) e a Trilogia da Aliança (Eragon, Eldest, Brisingr) são só duas que me vieram na cabeça agora. Foi isso até que...
...até que uma escritora(?) mórmon, deitada confortavelmente em sua cama a noite, teve um sonho em que via um casal conversando. O homem era um vampiro que brilhava ao sol, a mulher era na verdade uma garota que estava incondicional e irrevogavelmente apaixonada por ele. No dia seguinte ela começou a escrever a série Crepúsculo. Pegou. Volto a ela mais tarde, porque não é só de literatura de que vivem as modinhas.
As modinhas também ocorrem na música, e aqui estão intimamente relacionadas com o vestuário de quem escuta. Primeiro eram os metaleiros e maloqueiros; a seguir os góticos; então os emos; seguindo estes, os “happyemo” e os coloridos, que eu já nem sei mais se não são ambos a mesma coisa. Cada grupo teve suas bandas favoritas (e efêmeras) e costumes favoritos (precisa dizer da duração também?).
Não tenho nada contra nenhum deles, no geral, até porque pelo Politicamente Correto ninguém pode ter nada de grave contra ninguém mesmo, mas o que me chama a atenção é a de que muitos dos que seguem essas modas só o fazem por... por algum motivo que não sabem. Talvez os primeiros metaleiros de fato gostariam de experimentar uma vida sem medo de dor; os demais vieram ser metaleiros como desculpa para acabar com a voz fazendo guturais e bater em homossexuais a noite. Os primeiros emos estavam mesmo chateados com a individualização nefasta (rá!) que os avanços tecnológicos nos trouxeram, e procuraram mesmo a emoção em um mundo cada vez mais racional; mas os demais se tornaram emos porque queriam ser diferentes, porque queriam mostrar para todo mundo como gostavam de Simple Plan e de NxZero.
Dos coloridos nem se fala. Esses eu não consigo visualizar como um grupo que começou com os “de verdade”. Mesmo os primeiros já eram coloridos por quererem ser diferentes.
{ Os hippies queriam um novo estilo de vida, menos consumista, menos guerra, mais amor. Os comunistas brasileiros queriam o fim da ditadura, mais democracia, menos ganância, mais justiça. Os jovens de hoje querem o quê mesmo?}
Não quero ser o dono da verdade aqui, até porque criticar modinhas também é modinha, de certa forma. Pelo menos no Orkut (que era modinha, agora virou essencial; Twitter, formspring e assemelhados vieram tentar fazer o que o Orkut fez, mas não tiveram tamanho êxito), onde também havia, por exemplo, a modinha das comunidades dos trechos de livros (geralmente Harry Potter ou Crepúsculo), e agora tem a das comunidades “enumeradoras”: 10 coisas para se fazer na aula, 100 formas de criar uma modinha, 947 verdades sobre Chuck Norris. Eu estou na do Chuck Norris, me dobro de rir das piadinhas.
Como eu dizia, não quero ser o dono da verdade. Nunca escutei Cine, Restart, Justin Bieber e outras bandas coloridas para dizer se é bom ou não, mas também não tenho interesse. Independente da qualidade, por quê as criaturas se entregam a esse tipo de fanatismo? Ou no caso de Crepúsculo, esse tipo?
(voltando aos vampiros purpurinados, como eu disse que faria)
Não é uma série ruim, ela te prende e faz ter vontade de ler mais, como o Dan Brown faz. Dizem que ele tem um Gerador Dan Brown que produz histórias (mistérios antigos + teorias novas + sociedades secretas + o mundo depender disso), mas vende. Crepúsculo também, do ponto de vista “técnico” de escrita é ruim, mas as pessoas gostam. Eu mesmo só parei de ler porque me anojei da série, porque virou modinha e tal. Harry Potter ainda tem algumas reflexões sobre a morte, idéias profundas sobre o que é a amizade e tramas lógicas; em Crepúsculo o que tem é ignorado por quem lê.
A pergunta que fica é: POR QUÊ fazem tanto sucesso essas séries e essas bandas que, embora não sejam ruins no fim das contas, não perdem em nada para outras coisas do tipo? O que leva os fãs a serem tão (aparentemente) descerebrados e rebeldes, mesmo com tanto acesso a informação, educação, com tantas facilidades?
A resposta (a parte mais difícil do texto), eu deixo com você, leitor fiel, meu irmão camarada. O que você acha?
domingo, 4 de abril de 2010
Páscoa
Não é segredo, ou pelo menos não deveria ser, o fato de que eu não sou lá a pessoa mais religiosa do mundo. Minha visão sobre a religião é às vezes agressiva (quando em relação aos 11’s de setembro que acontecem pelo mundo), mas na maior parte das vezes é compreensiva, levemente zombeteira. Então se você sentir-se ofendido com algo daqui, poxa, morda-se de raiva. (risos)
A Páscoa Cristã refere-se - como todos nós estamos cansados de saber devido àquelas aulas sutilmente proselitistas que tínhamos no ensino fundamental em que a “tia” nos ensinava a rezar antes de comer pedindo fartura e depois de batermos no nosso colega, pedindo perdão - à Ressurreição de Cristo, que descarta apresentações. Como a suposta ressurreição (a morte eu consigo aceitar; a ressurreição é mais complicada...) ocorreu no período do Pessach, em que os judeus comemoram a sua fuga do Egito (segundo a Wikipédia), acabou que os acontecimentos se misturaram na mentalidade das pessoas e como a Igreja Católica, como instituição, é mais poderosa $$$ que o Judaísmo, o que nos chegou na pré-escola foi a comemoração da renovação, do tempo de fazer a faxina na vida (Papa says: esqc u êxodo).
Tem o chocolate aí no meio, óbvio, porque evitar que alguém queira ganhar dinheiro em cima de uma data é tão impossível quanto alguém ressuscitar e em seguida subir aos céus. Mas vai saber, né.
A idéia aqui é aquela velha idéia que eu sempre retomo com todos: vamos pensar sobre o que é isso. Independente da nossa concordância ou não sobre os detalhes absurdos, todos devemos parar e analisar a nossa vida em busca de coisas em que devemos morrer; situações que já deram o que tinham que dar e que precisam que nós nos renovamos, subamos aos céus e vejamos tudo sob (ou sobre?) um ângulo diferente.
É pra isso que serve a religião. Sem uma data dessas, quando que o Seu Zé faria uma reflexão dessas? Talvez ele fizesse, mas nem todos fariam. Como verdade absoluta (no sentido racional de “verdade”, que é no fim das contas o que conta) a religião não presta, mas se a tomarmos por um lado mais utilitário, como no parágrafo anterior, aproveitando a data para refletir (e comprar chocolate), temos todos muito a ganhar.
Boas reflexões, e uma Feliz Páscoa!
quinta-feira, 18 de março de 2010
Inspiração Lunática
Muitos nascerão e muitos morrerão antes que se descubra tudo que há para se descobrir a respeito da inspiração. De onde vem, pra onde vai, o que fazer para que ela nos sorria quando olhamos em sua direção pedindo, suplicando, mendigando idéias... Por que é triste ter a vontade, mas não ter uma idéia em cima da qual trabalhar.
A lua, por exemplo. Quantas pessoas já escreveram a seu respeito? Quero dizer, ela deve ter alguma coisa mágica, pois de tudo já foi falado a seu respeito. Mundo de queijo, paraíso dos ratos; parceira dos enamorados (nos romances água com açúcar em que pesaram a mão no açúcar); arquiinimiga dos lobisomens, ou pelo menos era, até antes da Stephenie Meyer vampirizar com as histórias de vampiros e lobisomens, com essas histórias tão divulgadas e supervalorizadas que circulam pelos adolescentes. Sim, há uma referência a lobisomens “de verdade”, em alguma parte do quarto livro, só que isso não redime de forma nenhuma o que essa monstra fez com o Drácula.
Como eu dizia, a lua deve ter algo de mágico. Basta pegar uma cadeira e se sentar em uma noite de céu limpo e lua visível para se ter uma experiência religiosa contemplando o astro mais brilhante do firmamento noturno. O fato de que não tem luz própria, e que depende do sol para que o vejamos, é só uma de suas infinitas possibilidades de filosofar, pensando a respeito de ser dependente, de não ter “luz” própria, de estar sempre eclipsado por outra pessoa...
Eu é que não caio nessa. Sou como um drogado que está tentando se recolocar na sociedade, então tento não provar muito do meu vício, que é o pensamento maionesístico. Divertido, dá até um barato... mas hoje não.
O que me proponho é algo mais leve. A minha metadona, se me permitem dizer assim. Algo meio científico, por que disso não me privo, nem quero me privar, mas ainda assim com um pé na realidade.
Pois bem. Girando a uma distância de aproximadamente quatrocentos mil quilômetros da Terra, esse pedaço de pedra pesando 73 sextilhões de quilos tem a audácia de nunca nos mostrar a bunda. O seu período de rotação é igual ao de translação, ou seja, a face que vemos da lua é sempre a mesma. O que teria do outro lado da lua é uma questão interessante e fecunda.
Estaria lá o Papai Noel lendo as cartinhas das crianças famintas da África? (ponto para quem disse que o lado científico da coisa e a minha promessa de me manter longe da maionese terminaram no parágrafo anterior) Ou o Coelhinho da Páscoa, fabricando ovos? Os chineses (ou os japoneses, mas isso tampouco importa) acreditam (não que todos acreditem; com isso quero dizer que isso é uma crença tradicional de lá. Até porque, caso se tratar dos chineses, há um bocado deles pelo mundo, muito chinês meeeesmo, e seria bobice achar que todos acreditariam na mesma mentira, mesmo que às vezes aconteça) que na Lua estão vários coelhinhos fazendo bolinhos de arroz. Posso imaginar, contudo, que a imagem verdadeira hoje seria a seguinte: o Coelhinho da Páscoa, há muito vampirizado (não como os lobisomens) pelo capitalismo e consumismo desenfreado (ver EUA, em qualquer enciclopédia), desenvolveu um gosto excessivo pelo dinheiro, esquecendo mesmo do sexo com a Coelhinha da Páscoa, que morreu de desgosto. Vendo que não conseguiria produzir sozinho o que a demanda pedia de ovos de chocolate, ele hoje explora o trabalho dos coelhos chineses, obrigando-os a fabricar seus ovos de chocolate ao invés dos bolinhos de arroz que há tanto produziam. Dizem que ele planeja alcançar o público adulto, nas próximas páscoas, desenvolvendo mais a idéia dos licores de chocolate, uma mistura exótica com o saquê feito com o arroz excedente (tipo, pararam de fazer bolinhos; alguma coisa tem que ser feita com todo aquele arroz) que deixaria meio mundo bêbado. O Papai Noel faria parte do setor de qualidade, estando portanto impossibilitado de dirigir seu trenó.
Talvez, em uma visão menos pascal-imperialista da coisa, no lado escuro da lua exista uma cidade de seres lunáticos que desconhecemos. Os moonies. Grandes prédios, carros voadores, portas giratórias, tudo muitíssimo bonito, em aço inox ou em algum tom de branco. A cidade seria pequena em questão de largura, mas ela poderia muito bem entrar Lua adentro, em um complexo sistema de cidade subterrânea. Tudo isso seria ainda mais impressionante por que os moonies, grandes moonies, tem só uma perna saindo de um corpo peludo e fofo, do qual um olho (apenas um), sempre com um olhar melancólico e pidão (ver Gato do Shrek, não confundir com Gato de Schroedinger), perscruta o ambiente em busca de uma criança que possa afagar os seus pelos macios e sedosos. Eles nunca acham, e esse é o porquê do olhar melancólico. Como eles construíram tudo aquilo é a pergunta chave para entender por que isso tudo seria impressionante.
Existe ainda a possibilidade de existir, bem no meio do outro lado da lua (assumindo, é claro, que esse outro lado exista), um senhor grisalho, barbudo, olhar profundo de Eu-Sei-Tudo-E-Entendo-A-Sua-Inquietude, túnica branca como a lua, apoiado em um cajado de madeira e sentado em cima de um baú onde, como imediatamente se percebe, estão trancados todos os Segredos e Respostas. Onde está a ilha de Lost? Onde está o padre dos balões? Onde está aquela menina desaparecida? Onde está Wally? O velhinho sabe. Seu nome (o do velhinho) é Arnoldo, e quando questionado sobre como respira se na Lua não tem atmosfera ele só sorri e balança a cabeça, como fazem as pessoas que não escutam muito bem.
De todos os mistérios trancafiados no baú do velhinho, ou no cofre dos arquivos empresariais do Coelho, ou na mente dos moonies, um que nunca terá resposta, ou que terá mas que muitos nascerão e muitos morrerão antes de descobri-la, é sobre a inspiração. Não dá, ela é um Grande Mistério. De onde vem, para onde vai...
Só sei que falar da lua funciona.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Mundinho Grande
Venho notado algo ultimamente. Aliás, vocês estão bem cientes de que eu tenho notado muitas coisas desde que eu comecei a escrever aqui, e talvez não estejam cientes de que muitas das coisas que noto eu não chego a publicar, pondo a seu escrutínio, mas isso também acontece, apesar do seu desconhecimento. Ainda não consegui condensar minha visão de mundo em uma frase só, e sempre que tento explicar em mais de uma frase a tal visão, a coisa toda acaba saindo um pouco do controle e no fim o melhor é ir deixando um pedaço aqui e outro ali, para que no fim os sensíveis e inteligentes leitores acabem percebendo o que eu acho da Vida, do Universo e do Resto. Quem não perceber, poxa, lamento, mas a seleção natural é um processo cego, automático e totalmente lógico, que nada tem contra quem ela não beneficia, e nada a favor de quem ela não se desfaz.
E como eu dizia, venho notado algo ultimamente. “Ultimamente”, como em muitas das outras vezes que eu notei algo, é aproximadamente nos últimos 16 anos. E dessas vem, pasmem, não é algo tão complicado de explicar. Pode ser um pouco de entender, mas já falei sobre isso no primeiro parágrafo.
O mundo tem ficado cada vez menor, e no entanto cada vez maior também. Menor por que agora eu já consigo olhar em cima da mesa sem subir em uma cadeira, e menor por que o mundo agora não termina mais onde termina minha casa, entendem? Perceber isso é um trabalho e tanto, apesar de nos parecer fácil, agora que já percebemos isso cada um em seu tempo. Talvez muitos dos problemas que as pessoas alegam, aqueles internos cuja culpa não pode ser relacionada diretamente com o mundo em, venham do fato de uma percepção errada das coisas.
Quando olhava a mesa por baixo, tudo estava ao redor e por cima, ainda que eu estivesse protegido pelos meus pais, e os problemas pra lá do muro não eram problemas, eles sequer existiam. Hoje, embora minha mãe ainda esteja lá, não é mais a mesma coisa, por que agora eu já posso olhar os problemas de cima (aqui está o grande lance; alguns depressivos não percebem o poder que tem de segurar as rédeas dos próprios problemas, de dar significado ao próprio tempo) e ela tem os problemas dela mesma para segurar. O mundo não acaba no muro, mas não é para te amedrontar, só para possibilitar o seu crescimento no trato com as outras pessoas.
Bem, eu não espero que entendam, mas é que eu precisava externar isso. O recomeço das aulas é na terça, junto com um compromisso importante do coral que participo, e ambas as coisas (estressantes se eu não tomar o cuidado de focá-los do modo que tentei mostrar acima) me fazem pensar nisso tudo, e em mais.
Eu sei, não é culpa de vocês que eu tenha a compulsão de tentar entender a mente humana e a minha própria, então por que postar aqui para vocês lerem? “Esse é o mistério da nossa fé”, ok?
Abraço!
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O Homem
Isso tudo começa com um homem saindo de casa para ir ao trabalho, em um dia qualquer. E quero aqui que vocês notem que, se eu não der maiores informações acerca desse homem, vocês provavelmente já criaram nas suas mentes uma imagem dele. Se não criaram, é porque já foram longe demais na luta contra preconceitos inexistentes, e se distanciaram perigosamente da realidade, a ponto de desenvolverem algum tipo de patologia que não é minha obrigação determinar. Então, pelo bem da saúde mental de vocês, admitam que vocês têm, sim, alguns preconceitos, e que a imagem do homem que vocês criaram nas suas mentes não depende do que eu disse e sim daquilo que vocês previamente estabeleceram do que é um homem normal.
Sim, por que o homem de cuja casa saiu, no início do texto, é um homem normal. Aparência normal, vida normal, trabalho normal, itinerário normal. Para ir ao trabalho, ele toma um ônibus normal, desses com dois faróis, grandes rodas, muita inércia, inércia o suficiente para não conseguir frear a tempo de atropelar vocês, caso vocês se atravessem na frente dele. Mas não se preocupem, não haverá sangue nesse texto, isso aqui não é um começo de um gancho retomado mais a frente, embora ficasse legal se o fosse.
O ônibus normal, em que adentrou o sujeito normal de que falei, pode ser diferente conforme a imagem que vocês já tem de um ônibus normal. Ainda mais por que ninguém, exceto eu, sabe em que época e horário essa história está se desenrolando. Por exemplo, se for manhã, como de fato é (já estou lhes adiantando), haverão várias pessoas indo trabalhar, vários estudantes indo estudar, essas coisas. O humor das pessoas seria diferente caso eu especificasse se isso aqui se trata de uma história na segunda-feira, ou na terça-feira, assim por diante. Os alunos, também, poderiam não estar ali caso isso tudo se passasse em um momento de férias, mas eles estão. Alguns deles estão com fone de ouvido, escutando suas bandas sem conteúdo, outros estão só fazendo aquilo que estudantes fazem de melhor: nada. Se o ônibus estiver no caminho de uma escola um pouco melhor do que a média, ainda haverá um deles lendo um livro, e os outros estarão escutando algo um pouco mais inteligente. Caso o ônibus passe em uma escola ainda melhor, não haveriam estudantes dentro dele, pois eles teriam ido de carro, não é? Enfim, esqueçamos os passageiros, fato é que o importante é que é um ônibus normal, em um dia normal, época normal, horário normal, no qual um sujeito normal entrou. De fato, ele é o único passageiro que nos importa. Deu oi ao cobrador, que lhe devolveu um rosnado e o troco; o homem pensou que o cobrador está de mau humor por ainda ter todo um dia de cobranças e de trocos e rosnados, e pensou também que no fim do dia o cobrador estaria de mau humor por que o dia foi ruim. Mas isso já era problema do cobrador mesmo.
O homem andou e sentou em um assento vazio. Nenhum de nós acorda com vontade de emplacar uma conversa com um desconhecido em um ônibus, ainda mais quando todos os desconhecidos estão sendo deliberadamente ignorados pelo narrador. E se algum de vocês acorda assim, fiquem sabendo que será um milagre estatístico você se sentar do lado de outra pessoa como você, então se segure antes de entrar em uma conversa constrangedora repleta de silêncios igualmente constrangedores.
O homem, enquanto olhava pela janela o movimento passivo das árvores e das casas, pensou nos seus próprios problemas. Não é de se espantar, em um ônibus cheio do vazio das pessoas, que um homem normal pense nos seus problemas. E agora ele percebe, como percebe em todas as vezes em que pensa nos seus problemas, que o remédio é tentar ser mais ativo nos problemas em que se encontra. Deixar de ser como a paisagem, que se move por causa do ônibus e não o contrário. Tem que deixar de ser tão flexível, a ponto de não delimitar a própria opinião, como tem feito por tantas vezes que agora nem sabe se consegue reverter o costume. Mas não quer se tornar inflexível demais, a ponto de ser um chato. E vê, mais uma vez, que a arte de viver está aí, encontrar nesse degradê de cinzas o cinza correto, nem preto nem branco demais. E também vê que tem que decidir melhor quais situações ele deve ser frio, em quais deve ser terno, para deixar de ser tão morno.
O homem olhou então ao redor, para os outros passageiros, aqueles que decidimos ignorar. Quais deles pensavam nisso? Será que era só ele que tinha dessas? Será que os outros não as tinham por já saberem, por já terem tido, ou são eles paisagem, e nem sabem que existe a possibilidade de pensar sobre isso? Ele não sabe. Prefere então pensar no seu próprio raciocínio, e depois de cansar dele, decide pensar no seu trabalho, que a propósito, já está a chegar perto. O homem puxa a cordinha, dá tchau para o motorista, que acena da forma mais profissional e masculina que consegue, e desce para ir para o seu trabalho.
No caminho nós o perdemos de vista, por que já agora ele nos é só como era os passageiros do ônibus, e não nos interessa mais seus pensamentos.
***
Não se devem fazer suposições de comparação entre mim e o homem normal. Uma que nem me considero homem; na hierarquia da tribo, ainda sou um garoto. Embora as amigas da minha mãe falem “nossa, já está um homem” elas não comentariam isso de alguém que considerassem de fato um homem, mas enfim. Outra por que o que se passou foi tudo invenção, alegoria para expor pensamentos que venho tendo; se sobre minha própria vida, tira a graça se contar. É a mágica do eu-lírico, do personagem com sentimentos e tal. São poucos os sentimentos do personagem, todos simples, por que, poxa, não se pode esperar outra coisa de um personagem criado por um garoto que já não é lá essas coisas no que diz respeito a sentimento, que dirá de expressar-se. Se não consigo esbofetear o meu interlocutor com aquilo que sinto, por carregá-lo na cara, supõe-se nisso um defeito? Ou uma característica?
Eu é que não sei.
Vou nessa que está na hora do ônibus. Por que é assim que termina, comigo voltando para casa, ou algo assim.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
O Passado
Mas então. Estava pensando no passado, quando saía com minha mãe e meu pai nos domingos, para ir nas cachoeiras de Dois Irmãos, cidade perto da minha. Essa lembrança é antiga o suficiente para ter aquelas névoas nos cantos, para não ser precisa e leal com a realidade, já que as memórias envelhecem com a gente, e mudam um pouco no processo. Acho muito interessante que essas lembranças, essas que guardamos de criança, sempre estão associadas com um sentimento. Como uma cor, ou um cheiro, que está presente na lembrança, mas ainda assim diferente, por que cor e cheiro se sentem com os olhos e com o nariz, e sentimentos... apenas se sentem. Por exemplo, quando meu pai andava na beira de uma cachoeira, enquanto eu e minha mãe olhávamos com admiração e ansiedade. Essa lembrança tem cheiro de “meu pai é herói”, cor de “amor protetor materno”. A placa que está logo atrás, onde está escrito “é bonito, mas é perigoso; cuidado com as corredeiras”, que com certeza tinha algum erro de português que na época me escapou, ainda conserva o sentimento de “vocês que se matem afogados, contanto que paguem a entrada antes de morrerem ou deixem a carteira à vista”. E assim por diante.
Como eu dizia, conforme o tempo passa as lembranças vão mudando. Aqui eu poderia dizer que elas mudam de “essência”, ou de “formato”, mas estaria mentindo se dissesse algo tão simples. Conforme o tempo passa, as lembranças continuam dizendo aquilo que diziam, mas não estão mais ali, como estavam antes, só sobrou o buraco que elas deixaram na mente, o encaixe como de uma chave. Só tem o formato antigo, e você preenche com os materiais da imaginação, abusando dos projetos das outras lembranças, menos alteradas.
Na tal lembrança, ainda, só lembro de um céu laranja, e de sentir que está logo na hora de ir para casa. De querer ir aonde meu pai estava, ao mesmo tempo que queria que ele saísse dali antes que escorregasse e me deixasse órfão de pai. Eu tinha muito medo disso, desde sempre fui dado a reflexões perigosas. Mas não aconteceu, na ocasião.
A lembrança do meu pai, um ser humano, não um cenário ou um episódio como com a cachoeira, é ainda mais estranha. Era um herói, como disse antes, honesto, correto, inteligente, engraçadíssimo quando queria, muito cricri, estressado como eu serei se não mudar, extremamente amoroso com a família, sempre presente. Quando ele estava junto de amigos, não mudava, tinha sempre o mesmo caráter, mas com os amigos ele se tornava tão... humano, sabe? Na época eu ainda não sabia que ele também era um ser humano. Tinha vaga idéia de que ele não sabia voar, nem conseguia puxar um Boeing 737 com os dentes, mas a sutileza da mente infantil não é passível de explicação, apesar dos esforços meus e de todos que sentem a necessidade de explicar o mundo.
E, além de pensar no passado, pensei também nisso que disse no parágrafo anterior, e nas idéias seguintes inevitáveis. Por que na época que meu pai era vivo eu era criança e minha mente hoje só mantém os alicerces morais daquele tempo, quase todo o resto já foi mudado. Se conservo ainda alguma noção residual que criei naqueles dias, conservo sem querer. Alguma coisa que meu pai ou minha mãe me disse naquele tempo que eu nem sequer cogitei não ser totalmente verdade, mas que se parar para pensar melhor não condiz com o resto que eu sei... entendem? Mas acho que esse tipo de memória eu quase não tenho mais, mas pelas suas próprias características, eu não saberia se tivesse.
E estou me desviando do assunto. Continuando, como dizia: além do passado, pensei também no que disse no parágrafo anterior (que, agora, é o anterior ao anterior). Por que como eu era diferente ao que sou hoje, talvez eu não esteja tão certo sobre como meu pai era. Me diziam que ele era inteligente, mas eu não era lá essas coisas de esperteza então, o que significa que pela perspectiva talvez meu pai não fosse tão inteligente como dizem. Memórias objetivas escasseiam, a respeito dele só tenho aquelas lembranças de que falei, como fendas de chaves.
O que dizem a respeito das memórias que temos dos entes queridos que morrem, é que quando conhecemos uma pessoa nós criamos um profile dessa pessoa na nossa cabeça, onde guardamos tudo que temos e sentimos em relação a ela; quando ela morre, não entendemos a morte totalmente. Afinal, a uma aceleração de 9,8m/s², em quanto tempo uma simples palavra, “morte”, teria energia suficiente para acabar com todo um dicionário de palavras que construímos sobre uma pessoa, todas elas dizendo que ela ainda vive? Pois é. A partir daí vem a noção de vida após a morte, a sensação de que a pessoa ainda está por aí, olhando por nós, de que ela não deixou de existir.
No dia em que tiraram a vida do meu pai em um assalto, iniciou-se em mim um processo que me distanciou cada vez mais daquilo que eu era. Mudei idéias, valores, mudei eu. Por causa daquele dia, não sei se hoje o que penso sobre meu pai condiz com a realidade, sei que não importa, pois sei que independente do que eu sei, ou não sei, ele foi um grande homem. Mas eu não tenho mesmo como saber, isso é uma questão em que a única posição possível mesmo é algo como o agnosticismo, o “saber que não tem como saber”, e saber que a única coisa boa que provém disso tudo é entender os próprios limites. Por mais que progredirmos, certas questões ficarão para sempre nos instigando a continuar a procurar a resposta, eternamente escondida. E são elas que importam de fato, são elas que nos mostram que as intempéries do mundo são coisas minúsculas, perto do resto.
E foi mais ou menos aí que eu parei de pensar, não por achar ter ido longe demais, mas por achar ter ido longe o suficiente para haver ainda mais mudança aqui dentro.
Um abraço!
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal
Mais um final de ano chega, com todos as suas festas, despedidas, promessas, amigos-secretos, presentes, apelos comerciais e reuniões familiares e de amigos. Muita gente vai brigar por causa do último pedaço do chester, muita gente vai brigar por que não tem pedaço algum de chester pra comer, mas todos são, de alguma forma, atingidos pela magia natalina. Por que isso? O que tem essa data de tão importante e comovente?
Há uns 2500 anos, quando o reino davídico de Judá existiu, os judeus estavam certos de que Deus era o juiz do mundo, e que ele castigava os infratores e beneficiava os bons e justos ainda em vida, na forma de bênçãos ou maldições, dependendo o caso. (seja o que for que eles considerassem bondade ou justiça, na época). O que aconteceu-lhes, em seguida, pôs em cheque algumas de suas crenças sobre justiça: todos eles, judeus bons e judeus maus, sofreram quando o seu reino foi destruído pelos caldeus. O azar da guerra não escolheu quem atingir: atingiu quem estava mais perto e mais indefeso.
Mas eles não largaram suas crenças. De alguma forma, para eles, Deus tinha que restabelecer o equilíbrio e lhes dar de volta o reino que tiveram, lhes dar de volta uma “Era de Ouro”, como era chamada a época antes da destruição do reino. Começou a crescer a crença de que Deus enviaria um rei que seria bom para eles e que faria o reino crescer novamente, e por isso muitos falavam da vinda do Messias (ou seja, “o ungido”, já que o rei era ungido com óleo como parte do ritual de entronização). Divagações sobre como seria a nova Era de Ouro mantinham as pessoas esperançosas a respeito de suas vidas; você também acreditaria no que lhe contassem se essa crença lhe fizesse agüentar a vida desgraçada que você levaria lá.
Por algum motivo irracional (existe algum racional?), os judeus foram perseguidos então, o que só fez aumentar a crença em um futuro dourado. Surgiu também a idéia de que o rei que os salvaria seria o Filho do Homem, como diz-se no Livro de Daniel. Mais tarde, houve um popular pregador da Judéia, João Batista (o próprio), cuja mensagem dizia que estava próximo o dia em que o salvador chegaria.
E dessa forma a expectativa de que alguém chegaria pela porta de emergência com um extintor de incêndio divino era grande e bem difundida, e não tardaram a aparecer os candidatos. Houveram vários, mas um em especial se salientou em relação aos demais, por efetivamente ter juntado seguidores (os outros não levaram a nada). Seu nome era Jesus de Nazaré.
Se ele nasceu de uma virgem, se ele era realmente filho de um ente superior, se ele realizou milagres (puxa, imagina transformar água em vinho!), enfim, se o que falam dele é verdade, isso não me compete concluir. Muitos falam a favor e muitos contra, mas o que ninguém pode negar é a sua mensagem. Apesar de ter sido morto como um perigo para a ordem pública, por que nenhum governante é bobo de deixar vivo alguém que boa parte do povo considera como sendo aquele que vai acabar com o domínio daquele que boa parte do povo considera como sendo um tirano sem escrúpulos, sua mensagem de paz era simples e verdadeira: fazer o bem sem olhar pra quem, como uma parenta minha falava. Suas lições de altruísmo e bondade precederam Gandhi em uns dois mil anos, e de alguma forma ele conseguiu convencer bastante gente disso, apesar do atraso da época.
O Natal é a época em que todos nós devemos parar e pensar no que aquele fulano falou, e no que muitos depois dele falaram também. É uma época para repensarmos nosso conceitos de moral e de ética, e de repensarmos nossa vida como um todo. Se estamos fazendo tudo o que poderíamos fazer, se estamos fazendo algo que seria melhor que não fizéssemos, essas coisas. Pelo certo deveríamos fazer isso todos os dias, a todo momento, mas temos o costume de não apreciar a beleza de um jardim sem especular sobre as fadas que nele se escondem. Acho, pessoalmente, que a religião é um freio, mas acho também que analisando impessoalmente ela traz mais benefícios do que danos. Não fosse ela, ninguém pararia para pensar na mensagem pacifista de um revolucionário milenar, e muito menos fariam as reflexões conseqüentes de pensar sobre isso.
Por essa e por outras, camaradas, façam, neste Natal, aquilo que eu digo para vocês fazerem sempre: pensar, refletir. Mas nessa data pensem especialmente no próximo, e no que vocês podem fazer para aumentar a quantidade de felicidade no mundo.
Se mais pessoas fizessem isso, acredito que a Era de Ouro de fato retornaria...
Boas Festas!
terça-feira, 17 de março de 2009
Embarcando no Transatlântico da Maionese
Os motivos de eu não conseguir ficar sem escrever é o de sempre, e ao mesmo tempo sempre tão novo: a cabeça não cala a boca. Passa um tempo sem que eu expresse os meus pensamentos, e eu começo a ver coisas que eu não veria se não estivesse com a cabeça cheia de pensamentos (ou usando drogas, mas não é o caso), como por exemplo, ver uma formiga passar e ter revelações filosóficas sobre qualquer coisa, e isso é comum. Pode ser uma revelação antiga, reciclada, mas uma revelação é sempre uma revelação, e a cada uma nova muda o jeito de ver a vida, muda tudo, e isso é uma beleza, deixa o espírito pronto pra enfrentar a eterna novidade do mundo.
Outro motivo é por que eu viajo demais nas idéias também. Vide parágrafo anterior.
E isso agora não está acontecendo só no âmbito da escrita e da intelectualidade e pseudointelectualidade, mas também na música. Como os com capacidade mnemônica mais bem exercitada vão poder se lembrar, eu comecei mês passado um curso de piano, e isso me fez pensar em algumas coisas (diga, existe alguma coisa que não surta esse efeito em mim? Eu não saberia responder). Por que depois que comecei a aprender, eu passei a enxergar a música de um modo diferente. Eu, que estou ha pelo menos cinco anos mergulhado na música por causa do coral e das amizades, me impressionei com o aumento da minha sensibilidade nesse campo depois de começar o tal curso. Passei a perceber coisas que antes eu não percebia, passei a lembrar mais facilmente de músicas sendo que antes era preciso ginástica mental pra fazer isso, entre outras mudanças. Então, a conclusão desses pontos desconjuntados, é que por mais que tu saiba algo, tu ainda não sabe nada de nada. Antes de começar o curso, eu era um completo ignorante a respeito da música. E só vou passar da faixa da estupidez em relação a isso se me esforçar muito, mesmo tendo essa minha facilidade natural de sugar conhecimentos e mudar de opinião.
E esse final de parágrafo me remete a outro assuntinho que eu andei pensando nesses dias. Para exemplificar, vou usar um exemplo bem corriqueiro.
Aula de física. Professor explicando a matéria. Depois de explicar, passa a lista de exercícios a serem feitos. Depois de feitos, pergunta se a turma entendeu. E é aí o pulo do gato que eu quero chegar.
Qual é o seu conceito de “entender” algo? Eu quase nunca consigo dizer que entendi bem alguma coisa, assim logo que o professor pergunta, mas baseado no meu passado posso dizer com segurança e conhecimento de causa que se não entendo de cara não é por que sou burro, mas tem a ver com o meu conceito de entender. Se eu disser que entendi, pode esperar um 10 na próxima prova, ou um 9, mas os erros vão ser falta de atenção ou monguisse de minha parte mesmo.
E essa coisa não se restringe a conceitos, pode-se ver em um monte de coisas. Cores, sabores, etc, ninguém sabe se é o mesmo pra todos. Sentimentos, então, nem se fala. Quando alguém diz que morre de amores por outro alguém, isso talvez nem signifique nada, ou talvez signifique, depende quem diz né. Em época de eleição, os “hinos” dos candidatos adoram isso, enchem-se de palavras bonitas que apenas uma em cada 50 pessoas saberia dizer de fato o que é. Poetas passam dias e dias escrevendo para explicar o que é o amor para eles. É um intento meio impossível, mas rende bons versos, meu amigo Camões que o diga (“amor é contentamento descontente”, nada melhor).
Eu cheguei a mentalizar algo, uma “representação gráfica de como se comporta a mente humana e o universo criado por ela” (no melhor estilo trabalho escolar), que desse uma idéia do que eu quero dizer com tudo o que eu disse. Imagine uma bolha. Essa bolha é sua mente, e o universo criado e percebido por ela. Agora imagine várias bolhas, e perceba que essas são as outras pessoas e seus respectivos universos particulares. Conforme a proximidade do centro, a substância da bolha vai ficando mais resistiva ao avanço de algo que tenta penetra-la, ou seja, quando outra bolha tenta ocupar o mesmo espaço da sua bolha, forma-se uma zona de intersecção (sempre quis usar isso fora da aula de matemática) que seja até um máximo de onde não consegue mais seguir adiante, e nessa zona de intersecção está tudo o que você tem de comum com outra pessoa, ou que pode explicar para ela. O resto é totalmente seu, e felizmente ou não nunca vai conseguir explicar satisfatoriamente para ninguém. Exemplificar coisas que estão nesse grupo é trabalho para você e sua reflexão de hoje (ah é, até parece).
E estou escrevendo tudo isso por que estou lendo um livro sobre Inteligência Quântica, que seria meio que a explicação “científica” (por enquanto e por precaução, imagine muitos milhões de aspas juntas a essas aí) do Segredo. E no livro o cara fala sobre ceticismo e outros grupos que comem criancinhas no café da manhã. E comenta que é bom ser cético (sempre avaliar se uma idéia é boa o suficiente para substituir uma já existente) mas ser cético demais é tenacidade, o que em bom português é ser teimoso. O problema, é que o conceito de cético bom não é o tipo de coisa que está na zona de intersecção da minha mente e da do autor daquela coisa, então não sei agora o que eu penso sobre isso e sobre mim mesmo.
Será que sou cético? Será que não conseguir engolir um misticismo antigo fantasiado de ciência e embalado em palavras científicas, mesmo que acredite em sua eficácia porém não concorde com suas causas, é teimosia e cabeçadurismo da minha parte? Será que isso importa? Será que Capitu traiu Bentinho, ou isso foi uma ilusão muito bem criada pelo Machado idolatrado salve salve?
Esses e outros mistérios você pode responder nos comentários, ou esperar que um dia eu chegue lá sozinho, neste mesmo batcanal, neste mesmo bathorário (ou não).
batAbraço!