segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"Associações"

Numa Ilha Hipotética, localizada em algum lugar ao norte do Pólo Sul e ao sul do Pólo Norte, as pessoas têm a obsessão por associações. São tão obsessivas que inclusive criaram o Computador Associativo, um mainframe ultrainteligente que escaneia o tempo todo os interesses dos habitantes da Ilha, conferindo se eles não estão de fora de alguma associação a que pertençam ou se não estão ligados a uma associação com a qual não devem mais ter vínculo. Quando encontra um caso, imediatamente envia o cartão de boas-vindas, o que torna a pessoa oficialmente parte da associação em questão, ou envia um Agente que toma de volta o cartão. Não se pode recusar um convite: se você preenche os requisitos, é como se já pertencesse ao grupo. No entanto, se você deixa de preencher os requisitos, é imediatamente retirado do grupo.
Desta forma, existem muitos grupos na Ilha. O “Clube de Golfe”, o “Clube de Xadrez”, o “Clube de Amantes de Cavalos”, o “Clube Para Pessoas Que Gostam de Morangos” etc. Existe até mesmo o “Clube Para Quem Gosta De Et Caetera”.
O Governo dessa ilha, numa tentativa de incentivar a criação de novos grupos, paga ao criador de cada grupo uma quantia equivalente à quantidade de membros do grupo. Isso faz com que seja muito lucrativo criar um grupo: basta perceber uma brecha, uma ligação entre pessoas, que ainda não tenha sido agraciada com a criação de um grupo sobre isso, ir na Central de Grupos (onde se encontra o Computador Associativo) e registrar o grupo. Em questão de segundos o CA encontra todos os habitantes que podem participar e envia os cartões de sócio.
Um revés do processo é que os Criadores geralmente não pertencem ao grupo que criam. Eles o fazem somente pelo dinheiro. O criador do Grupo de Carne Vermelha é um vegan assumido, por exemplo. Em razão disso, existem muitos velhos ricos, avarentos e tristes que não fazem parte do grupo que criaram, às vezes de nenhum, e isso é muito ruim para eles, pois a participação em um grupo é o que rege a maioria das vidas dos habitantes dessa Ilha Hipotética; é lá que conhecem seus futuros maridos e esposas, e também é lá que conhecem os amigos que convidarão para padrinhos dos seus casamentos. Não fazer parte de nenhum grupo é uma grande tristeza.
O Senhor A. percebeu isso. Ele mesmo nunca tinha criado um grupo, participava de alguns, e estava numa pindaíba desgraçada, precisava do dinheiro. Foi então que resolveu criar um grupo, e o grupo se chamaria “Associação Para Criadores de Grupos que Não Participam do Próprio Grupo”.
Já vislumbrava o que faria com o dinheiro ganho quando estava se dirigindo para a Central de Associações. Entrou, explicou-se com a atendente e assinou alguns papéis. Em seguida a atendente inseriu os dados no Computador Associativo. O Sr. A. olhava tudo com olhos atentos. Quando ela inseriu os dados, pequenas lâmpadas começaram a piscar por toda a grande máquina, demonstrando a atividade que estava se desenrolando em seus circuitos internos.
Depois de alguns segundos, um bipe soou e uma grande remessa de cartões de boas-vindas saíram da impressora do CA. Um grupo de Agentes irrompeu pela sala, e dividiram igualmente os cartões para todos. Se detiveram olhando para os nomes e endereços nos cartões, e em seguida todos saíram pela porta, maquinalmente. O último ia saindo quando olhou para trás e viu o Sr. A. parado admirando o processo. Voltou-se e disse “Esse convite é para o senhor”. A. achou engraçado, mas fazia sentido: ele mesmo não participava do grupo que criara, e esse é o único requisito necessário para participar.
No exato momento que A. pegou o cartão, o Computador Associativo emitiu mais um bipe, uma oitava abaixo do bipe anterior. Uma Ordem saiu pela impressora, e o Agente foi verificar. Olhou para o Sr. A. e voltou andando depressa, dizendo: “Desculpe, mas o senhor não faz mais parte desse grupo” e tomou o cartão das mãos de A. antes que este terminasse de ler os detalhes no verso.
Afinal, A. tinha passado a pertencer ao grupo que criara, o que fazia com que deixasse de preencher o requisito necessário para participar.
Quando o Agente rasgou o cartão de A., mais um cartão saiu pela impressora do CA. Era para A. O Agente entregou o cartão para A., que o aceitou, para logo em seguida ver-se entregando de volta o cartão para o Agente, que o rasgava. Em seguida, mais um cartão saía do CA.
Enquanto isso acontecia, as luzes do CA começaram a piscar mais repetidamente, e no décimo cartão o computador começou a emitir vários bipes, desodernadamente. No vigésimo cartão, quando o Agente e A. já estavam fartos da situação, uma fumaça esverdeada saiu de trás do computador, e uma sirene de emergência soou no local. Policiais emergiram das janelas, das portas e do teto, e então prenderam A. Os cartões de boas-vindas e as Ordens de Retirada amontoavam-se ao redor da impressora. A atendente, então, em uma manobra muito inteligente, deletou o grupo do computador, o que fez com que toda balbúrdia de sons e luzes parasse na hora.

O Sr. A. encontra-se atualmente no Presídio Hipotético, aguardando julgamento por violar as Leis da Lógica.

5 comentários:

C'n destours disse...

hausshuahsuahsuhaushau, hipoteticamente hilário ;)Uma piada bem elaborada e sagaz.

Antônio disse...

Agora imagina se esse guri um dia resolver fumar maconha...

Fiquei com preguiça de logar.

Abraço!

Marcus disse...

Eu poderia realmente comentar muita coisa sobre esse texto, mas duas palavras resumo quase tudo:

"Sangue Adams."

Tu escreve DEMAIS, cara, devia escrever mais contos!

João disse...

cade voce que não posta mais textos poxa?
abrçs e boa pascoa!

Bibiana disse...

Em primeiro lugar o senhor vai ter que me explicar o que é um "mainframe".
Em segundo, só tu mesmo para escrever um texto genial assim.
Em terceiro: É o último! Acredita, acabaram-se os posts D:
E agora devo lhe informar que o senhor nunca mais terá paz, a cada segundo, a cada instante, eu estarei te lembrando de escrever aqui. Porque (por favor) é um desperdício alguém que tem talento, como você tem, não escrever. É de dar raiva nos que gostariam de escrever melhor e não conseguem. (Não, não estou falando sobre eu mesma. Imagina.)
Sinceramente, e agora sem brincadeiras, espero que você continue escrevendo. Bendito o da em que me passaste o endereço aqui do Sequelas.
Parabéns pelo blog.
Abraço!