quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Minhas Caras Baratas

Mais cedo, à tarde, eu estava recompondo os líquidos perdidos ao longo do suplício que foi o dia de hoje no quesito calor, escorado na pia da cozinha bebendo uma garrafa de água a grandes goladas e olhando para fora através da janela basculante que tem lá. Entre um gole e outro, percebi uma pequena movimentação no pátio (a janela dá para os fundos da casa) e, com um pouco mais de atenção, notei que o protagonista do movimento que chamara a minha atenção foi um rato. Não um rato qualquer, mas um Rato, com H maiúsculo. E atrás dele, outro rato, tão grande ou maior que o primeiro, e mais atrás deste, ainda espreitando do buraco de onde eles vieram, um terceiro rato, parecendo ser o mais tímido deles. Fui até lá para ver a situação, ergui a pedra que tampa o buraco de onde eles saíam (não perfeitamente, pois se o fosse os ratos não teriam como sair), e só vi um fiapo de rabo descendo pelo cano. Não investiguei mais por que sou muito nojento, e maiores investigações demandariam maiores nojeiras, então declarei neutralidade em relação aos ratos. Pelo menos por agora, enquanto minha mãe não compra veneno para ratos. Ou um lança-chamas, o que vier primeiro.
Até lá, não terei roblemas com eles desde que eu não pegue leptospirose. O meu problema são as baratas, que não se sentem satisfeitas comendo a nossa comida depois de digerida, nos esgotos, elas precisam comer coisas frescas.
Nem tanto por comerem as coisas frescas, se fosse só isso, eu até poderia fazer vista grossa como faço com os ratos, só que elas tem aqueles montes de pernas, e antenas, e fazem barulho andando na madeira, e andam rápido, e insistem em fixar objetivos atrás de nós, para poderem, pérfidas, chegarem lá atravessando no meio das nossas pernas... Puro preconceito, eu sei. Você, amigo budista, vai dizer que todas as criaturas merecem uma chance de sobrevivência na Terra, e eu vou lhe responder que a chance de sobreviver que a barata tem é inversamente proporcional a chance de eu acertar-lhe uma chinelada. Muitos justo, não podes negar.
Mas por vezes nem a chinelada eu não tento. Por que, como eu falei mais acima, sou muito nojento, e acertar a barata com o chinelo implica em espalhar suas entranhas pelo chão, que implica em ter que limpar a sujeira, o que implica que eu tenho a forte opinião de evitar ao máximo aumentar a sujeira com uma poça de vômito, por que sou nojento e o estômago dos nojentos é fraco, assim como a força de vontade de fazer sujeira. Funciona assim: eu levanto de madrugada para beber alguma coisa. Enquanto bebo, olho a cozinha ao meu redor e vejo, lá, ela, espreitando meus movimentos para ver o que de comestível que eu deixarei ao alcance de suas patas. Então faço rapidamente uma conta de cabeça para decidir se a mato ou não. Levo em conta o estado gástrico em que me encontro, para ver se posso aguentar ver a morte de perto ou não. Levo em conta a idade relativa da barata, pelo tamanho; mas isso nunca é muito útil, pois, se for nova, tenho de matá-la antes que chegue a idade adulta para por ovos, e se for velha, tenho de matá-la por que pode ser que ainda tenha chance de matá-la antes de por ovos. As duas me levam a matar. Levo em conta mais dois ou três fatores randômicos, decididos na hora.
Então, se o lado assassino vence, preparo minha havaiana e PÁFT!, dou-lhe uma chinelada. Se não morreu, PÁFT!, outra chinelada. E dou quantas precisar, PÁFT! PÁFT! PÁFT!, até ela não se mexer mais. Se é no banheiro que a vejo, eu posso matar com desodorante aerossol, dependendo do grau da minha perversidade na hora.
Porém, se a preguiça e o estômago fraco vencem no meu julgamento, faço o possível para fazer de conta que não a vi, ficando com os olhos em cima dela de modo a me assegurar de que ela também quer manter as nossas relações pacíficas sem correr ou se esconder de mim. E para saciar a parte de mim que gostaria de vê-la morta, fico imaginando crueldades. Li a pouco tempo sobre um método de tortura oriental, que seria o canal para qualquer pessoa doente botar seu lado mal pra fora. Chama-se as Mil Mortes.
A brincadeira é basicamente assim: em mil papéizinhos, escrevem-se os nomes de mil órgãos ou partes do corpo diferentes. Um em cada papel. Depois tu bota tudo num pote, mexe bem, e sorteia o primeiro papel. Digamos que nele diga "orelha esquerda". Muito bem, tu vai lá, e arranca a orelha esquerda de quem quer que seja o infeliz que tu esteja torturando. Depois "rim direito", "olho esquerdo", "dedo mindinho", e assim por diante. Chegará um momento que o dito cujo estará rezando para que você tire do pote um papel que lhe faça retirar algum órgão vital, para acabar de uma vez com aquilo. Divertido, não? Acho os orientais criativos pra caramba.
Mas, como eu dizia, quando eu não mato as baratas mesmo, imagino coisas como essa. Mas só imagino, por que não teria perícia para arrancar as partes nem visão para isso: dos meus cinco olhos, um é fechado e não enxerga nada, dois enxergam mal e os outros dois são de vidro e não enxergam sozinhos.
Outra coisa que eu penso, tirando essa parte assassina das mil mortes, quando vejo uma barata, é que elas podem até merecer certo respeito. Por que, afinal, serão elas que herdarão a Terra depois que nós, humanos, seres altamente complexos, nos autodestruirmos em uma guerra nuclear. É aquele papo de que elas são altamente resistentes à radiação, e tal. O respeito, claro, não vai muito longe. Grande coisa que elas aguentam radioatividade. Eu, que não aguento, suporto muito bem chineladas, não vivo de restos e creio ser resistente ao veneno para baratas também (se bem que não estou de modo algum inclinado a provar essa tese). No fim, a única barata que merece respeito, é a Megaloblata Longipennis (repare o nome), que é a maior: 30 centímetros do que há de melhor na arte da baratinagem. Não só respeito, temos de ter até temor dessa Godzilla ticuda. Imagina, vocês tentando matar ela, com um chinelo provavelmente menor? Pois é.

Mas enfim, o que eu quero dizer é que detesto seres que vivem em esgotos, sejam baratas, ratos ou crocodilos geneticamente modificados. Asco é uma palavra com pouco valor semântico para a ideia que quero passar. Mas fica aí a ideia, e os meus sinceros votos de que, para os sobreviventes da Terceira Guerra Mundial, reste, pelo menos, um inseticida ou um chinelo decente.

Abraço!

5 comentários:

Victor disse...

na verdade, eu li uma vez que um monte de outros insetos incorporam a radioatividade(isso mesmo, incorporam) muito melhor que elas.
A coisa impressionante mesmo é o cérebro delas, espalhado pelo corpo, ou seja, vc pode arrancar a cabeça que ela ainda sobrevive alguns dias. E claro, o radar que elas tem pra localizar numa sala cheia de gente, aquela pessoa que mais abomina baratas.

candy disse...

kkkkkkkkk
Só vc, Pequeno, pra ter tanta criatividade e bom humor pra escrever sobre barata!
uahuahahuahaa
ficou ótimo...

*isso dos mil papeizinhos me soou como autoconcentração (etc, etc, etc). Pô, escrever mil parte do corpo em mil papeis?!
O.o
isso que é vontade, hein? O.O

beijo, beijooo
e bom fds!!!!

Candy disse...

PEquenoooo!
obg pelos elogios a nova cara do bróg.
Achei que fosse dar um trabalhao, mas em pouco tempo eu já tinha ajeitado as cores, os nomes e a frase. Foi apenas questão de inspiração e paciência (que quase perdi ajeitando as cores... ¬¬).
:D
pelo menos valeu a pena!
tb gostei do resultado.

:***

Kari disse...

Marquinhos, queria, antes de tudo, te pedir desculpas, mas é que não vai dar pra ir pra Novo Hamburgo. Não por falta de vontade (claro!), mas é que, como domingo é meu niver, aí meu namorado quer me levar pra um monte de lugares (e eu tenho que aproveitar, né?).
Mas ei... Eu ainda venho muito por aqui, viu? E ainda vou conhecer vocês, pode ter certeza!!!!

Gosto demais de tu, visse guri???

Um beijão

candy disse...

/Candy no momento ciúme!
uahuhauahau