Na última semana o candidato à presidência Levy Fidélix me assombrou por dois motivos. O primeiro é que eu nunca imaginei que o cara do aerotrem fosse acabar sendo mais politicamente relevante do que, sei lá, o tio da carrocinha de cachorro quente. O segundo é o fato de que uma pessoa presumidamente educada, com acesso a bons livros e proeminente o suficiente dentro do próprio partido a ponto de ser escolhido como a melhor chance do partido de chegar à presidência, como uma pessoa assim consegue - apesar de tudo - continuar sendo um completo ignorante. Porque uma coisa é você ter a sua opinião, outra coisa é escolher por livre e espontânea vontade os piores argumentos possíveis para embasá-la.
Dando uma rápida vasculhada na internet (especialmente o Facebook), podemos encontrar facilmente alguns contra-argumentos que já desarmam o candidato:
1) tecnicamente, o pênis e a vagina também fazem parte do sistema excretor (ou tem alguém aí que faz xixi pelos poros do sovaco?);
2) levando em consideração o fato óbvio de que ele estava se referindo ao sexo anal, mesmo assim o que isso prova? Que pessoas do mesmo sexo não deveriam poder se casar porque não podem ter filhos? Tipo um casal tradicional em que o homem ou a mulher é estéril?
3) mesmo indo mais além, e considerando que o candidato pense que homossexualidade é questão de escolha e que é isso o que diferenciaria um casal homoafetivo que não pode gerar prole de um casal tradicional que não pode gerar prole (o primeiro "escolheu" ser gay e não ter filhos, enquanto que o segundo não escolheu ser estéril) o que diríamos então de um casal tradicional que escolhe não ter filhos, seja através de vasectomia ou do uso da camisinha? Eles não poderiam se casar?
4) qual a relação com o resto que o candidato viu eu não sei, mas ele também citou o fato de que o papa excomungou um padre pedófilo. E isso tem a ver com casamento homoafetivo porque sim.
Enfim, como eu disse, dá pra achar bem fácil contra-argumentos na internet, de forma que é difícil não interpretar a fala do candidato como uma tentativa desesperada de justificar o próprio preconceito irracional.
Agora, a parte em que a coisa toda fica difícil e que me deixa com uma pulga atrás de cada orelha: o que ele disse foi discurso de ódio? Ele deveria ser punido? Ou foi só uma coisa insanamente burra, foi um bom exemplo daquele ditado "é melhor ficar calado e parecer ignorante do que abrir a boca e acabar com as dúvidas"?
Para exemplificar os "lados" (se é que esse tipo de questão pode ser dita ter dois lados; topologicamente falando, não vejo razão para que não seja um objeto muito mais complexo), eu achei dois links interessantes.
O primeiro é o blog do Sakamoto, que raciocina de forma quase irresistível na direção de definir o que o Levy Fidélix fez como crime de discurso de ódio, e não mera liberdade de expressão. O feeling que o texto me passa é que está correto, mas parto do pressuposto de que eu sou uma pessoa flexível demais nesse caso, e como no passado li textos do Sakamoto que "esquerdaram" demais*, preferi ficar com um pé atrás.
Por causa desse pé atrás, vi o segundo link interessante. A coluna do Reinaldo Azevedo na Veja - ESPEEERA, não corre! Nem é tão ruim quanto parece, se você souber garimpar o que presta do que não presta. Por exemplo, logo no início ele já caga fora do penico dizendo que o Levy Fidélix fala menos besteiras do que a Luciana Genro e Eduardo Jorge, informação com a qual discordo totalmente. A Luciana Genro argumento muito bem muito obrigado e tem ideias que apesar de controversas fariam alguma diferença de verdade se ela fosse eleita. O Reinaldo pelo menos ganha uns pontos extras por usar a palavra "asnice" ao invés de "asneira", e isso por algum motivo me pareceu muito elegante.
Ele ter afirmado como verdade que Luciana Genro e Eduardo Jorge são piores candidatos do que o Levy Fidélix assim, de passagem, é só uma ferramente argumentativa de que o Schopenhauer (sério, não sou esnobe, não é a primeira vez que cito esse filósofo aqui e o motivo é simples: ele é um dos poucos que eu li) já falava no livrinho dele. Tu apresenta um conjunto de afirmações que o leitor vai aceitar, e no meio tu esconde algumas afirmações que o leitor poderia achar falsas. É grande a probabilidade de que o leitor no fim aceite o conjunto de afirmações e inadvertidamente aceite também as afirmações "escondidas". Isso tudo foi só um parênteses.
Na coluna do Reinaldo Azevedo, enfim, ele tece os próprios argumentos em favor de achar que o Levy é sim um idiota, mas não foi criminoso nas afirmações que fez. E quando eu li isso que percebi que era a pulga atrás da orelha que estava me incomodando. Façamos um exercício de empatia por um momento: digamos que você acredita de fato que homossexualidade é um problema, e que uma sociedade que a trata com naturalidade é, de alguma forma, menos desejável que uma sociedade que a repudia. Mas tudo o que você vê acontecer ao seu redor é que as pessoas estão cada vez mais tolerantes com esse comportamento (ou "com o comportamento dessa gente" como algum homofóbico enrustido sempre deixa escapar) e portanto sente que é seu dever como cidadão e candidato à presidência da república opor-se a isso. Não seria OK usar alguns argumentos falaciosos para convencer as pessoas? "Pelo bem maior"?
O que eu estou tentando dizer é que, se está tudo bem para o Eduardo Jorge dizer que deveria ser permitido a venda da maconha (quando, atualmente, é crime), e se está tudo bem para a Luciana Genro dizer que o aborto deveria ser permitido (quando, atualmente, é visto por muita gente como comparável ao assassinato), porque não estaria tudo bem para o Levy Fidélix dizer que acha que homossexualidade é doença e que não estimularia o casamento gay caso fosse (pausa para risos) eleito?
É uma questão complicada demais para que todo mundo fique fingindo que existe uma resposta óbvia. Tem gente muito inteligente dos dois lados da moeda, então algo errado tem.
A minha opinião, no momento, é a seguinte: quando alguém fala, pode ser obviamente simples liberdade de expressão, pode ser obviamente discurso de ódio, e pode ser algo entre os dois, que não é obviamente nada. O que o Levy Fidélix fez, pra mim, se encontra nessa última categoria, no limiar entre OK e não-OK. De forma que não vou assinar petição online para lhe cassar a candidatura, mas também não vou sair defendendo ardentemente a permanência dele na eleição.
Bom, era isso o que eu tinha pra dizer do assunto. Quero ressaltar, antes de me lançar na fogueira, que o que eu estou tentando "debater" aqui não é se o que o candidato disse estava certo ou errado, pois pra mim ele estava (muito) errado. O que não está claro para mim ainda, e por isso trago pra internet o questionamento, é até onde ele tem o direito de ter uma opinião de merda, basicamente, e a partir de qual ponto deveria ser considerado errado o que ele fez.
Aguardo retaliações!
Abraço!
* - essa coisa de esquerda/direita tem estado bastante presente nos meus pensamentos ultimamente. Como eu disse a respeito da questão da liberdade de expressão, não me parece que seja óbvio, ainda mais quando a esquerda tenta sempre reduzir a direita ao fascismo e a direita tenta sempre distorcer os feitos da esquerda (vide a coluna do Reinaldo Azevedo, que saiu atacando os candidatos de esquerda just because, quando o assunto não tinha a ver com isso). E também não entendo porque se insiste nesse pensamento de balaio, em que aceitando uma ideia a pessoa parece obrigada a aceitar todas. Não estudei o bastante do assunto ainda, é possível que no futuro eu venha a entender que existe alguma ideia que perspassa todas as outras e é por isso que elas andam juntas... mas até lá, sigo cético.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Bricks and walls and stuff...
A educação formal é o jeito que
acabou se firmando como o correto para passar o conhecimento das
gerações passadas para as gerações mais novas. Desbancou a
conversa ao redor da fogueira e deixou as marcas nas paredes das
cavernas no chinelo, em questão de eficiência e eficácia (sério,
alguém aí sabe mesmo a diferença entre as duas coisas?).
E não é muito novo esse formato.
Essa coisa de desde cedo mandarmos as crianças para a escola, onde
elas terão que repetir várias vezes nossas pérolas da Verdade até
que entendam ou, no mínimo, as conheçam suficientemente bem para
que as papagaieiem (do verbo papagaiar) adiante, e onde além disso
terão que respeitar o professor e assim aprender hierarquia, e
respeitar os colegas e assim aprender civilidade, e conhecer os
pontos cegos da escola e assim conhecer o mercado sexual paralelo da
sociedade moderna, essas coisas que se aprende na escola, isso tudo
era muito útil na época das indústrias, de bater cartão na entrada
e na saída como o Coiote e o Papa-Léguas, de ser importante apenas
até o ponto em que se ainda é lucrativo etc.
Não vou criticar o modelo. Tem um
monte de gente criticando o Enem e entre eles alguns estão
criticando o modelo. O que eu queria ressaltar é que ele é antigo.
E no tempo todo que o modelo esteve aí
para se aperfeiçoar, surgiram algumas fórmulas prontas de como
ensinar algumas coisas. Vocês conhecem bem algumas. Laranjas para
aprender soma, pintar mapas para aprender Geografia, ligar três
casas a três empresas de utilidades diferentes (sem cruzar as
linhas!) para aprender sobre grafos não-planares, e por aí vai. Um
muito legal, na minha opinião, é o que se usa para ensinar
implicação lógica.
Nas aulas de lógica se aprende a
aferir o valor lógico (verdadeiro ou falso) de uma proposição a
partir das suas componentes e das formas como elas se relacionam.
Assim, a proposição “o leitor está entediado OU o leitor está
começando a ficar entediado” vai ter valor verdadeiro se qualquer
uma das duas componentes for verdadeira – e eu tenho sifragol o
bastante para admitir que provavelmente uma delas É verdadeira.
Semelhantemente para a frase “o leitor não está entediado E o
leitor não está ficando entediado”, que seria verdadeira se ambas
as componentes fossem verdadeiras... e provavelmente não são. Não
vou ser chato como o Lemony Snicket que vive dizendo para os leitores
irem fazer outra coisa da vida, mas caso você queira, é um bom
momento para pensar no assunto.
A operação lógica que é ensinada
de uma forma memorável é a implicação lógica. “Se A então B”
só é falsa quando A é verdadeiro e B é falso. Essa definição é
árida e sem graça. Muito melhor quando contextualizada com
política. O político candidato diz:
- Se eu for eleito, revolucionarei a
educação!
Pois bem, agora fica mais fácil.
Digamos que o candidato seja eleito. Se ele revolucionar a educação,
tudo bem, cumpriu a promessa e, em termos lógicos, sua proposição
de implicação foi verdadeira. Se ele não revolucionar a educação,
daí então a proposição era falsa, e ele provou ser mais um
político como os outros.
Agora digamos que ele não seja
eleito. Se ele não revolucionar a educação, ninguém pode reclamar
de nada, porque ele disse que iria fazê-lo caso fosse eleito, mas
não prometeu nada para o caso em que não fosse eleito. Se ele
revolucionar a educação mesmo não tendo sido eleito, também a
proposição era verdadeira, ele não fez nada contrário ao que
prometeu. É claro que tal cenário é extremamente improvável, e
admito que ensinar implicação lógica talvez fique mais confuso se
o professor botar um político que talvez cumpra sua promessa mesmo
sem ter sido eleito.
Agora, digamos que o candidato queira
ser mais persuasivo, quase ameaçador. Ele dirá:
- Revolucionarei a educação se e
somente se eu for eleito!
Nesse caso, a implicação é dupla.
Vale a ida e a volta. Ou seja: se ele não for eleito, necas de
pitibiribas para a educação. Mas o público provavelmente não
entenderia o que ele quis dizer. Imaginem! Usar vocabulário de
demonstração matemática num palanque em que o mais recomendado é
falar pausadamente, com palavras curtas e sem muitas ideias
complexas, para que a massa possa se sentir acolhida e não se sentir
muito alienada do que está acontecendo... Esse candidato, por ser
político, certamente notaria o ar de perplexidade no semblante geral
e se poria a explicar. Talvez demorasse algum tempo, uma meia hora,
ia falar sobre Lógica, sobre os fundamentos da Matemática, sobre
coisas que são, coisas que não são e coisas que são o não-ser,
essas coisas. Alguns entre as pessoas da plateia talvez até
gostassem e entendessem o que estivessem ouvindo, talvez aquilo fosse
a fagulha que faltava para incendiar a curiosidade natural que todos
temos, não que alguém fosse virar doutor por ouvi-lo falar sobre
lógica, mas certamente iria encarar a vida de forma mais
questionadora, querendo mais do que exemplos com laranjas e modelos
medievais de ensino, talvez quisesse retornar para formas mais
antigas e conversar ao redor da fogueira com os mais velhos, ou
inventasse jeitos novos de aprender, quem sabe...
Isto é, o candidato estaria
revolucionando o ensino. Mas ele nem havia sido eleito! Portanto sua
proposição de implicação dupla é falsa, e ele estava mentindo.
Ou seja: não há esperança para
alguns políticos.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Tarô
Pegava o primeiro metrô
do dia para a casa da mãe, única solução em que conseguiu pensar
sendo um homem adulto e maduro, e continuava manejando incansável o baralho de
tarô, retirando cartas aleatoriamente e sempre
recebendo invariavelmente a mesma previsão.
Aquilo já tinha passado
dos limites, e tinha começado como uma simples brincadeira. Ele e
seus amigos estavam em uma dessas feiras itinerantes, que trazem para
a cidade tendas de reiki, cristais, massagem dos chakras, e todo tipo
de bobagem new age que se possa imaginar, e por provocação dos
amigos, que sabiam que Alain era um materialista convicto para quem o
sobrenatural era apenas um nome diferente para aquilo que não
entendemos ainda, decidiu ir na tenda do tarô e ver o que as cartas
lhe diriam.
O resultado ele já
esperava. A velha decrépita que lhe atendeu no interior escuro e com
o ar saturado de fumaça de incenso da tenda lhe tirou três cartas
que previam alguma merda genérica que teria sido uma boa previsão
para pelo menos 99% da população. “As cartas não mentem!”
disse ela, como ele tinha certeza que dizia para todos os seus
clientes. Pagou a consulta, satisfeito por não se ter deixado
enganar pela atmosfera do lugar, e já se virava para sair e contar a
experiẽncia para os amigos quando a velha lhe chamou, como se
tivesse lhe ocorrido de súbito uma ideia de última hora.
- Acho que deves levar um
desses – disse a velha, com um ar teatral que só não arrancou
risos de Alain por se tratar de uma senhora de idade, provavelmente
às portas da senilidade. Ela apontava para um baralho de tarô
exposto na prateleira ao lado da mesa de consulta.
Quando estava prestes a
declinar da oferta, Alain pensou melhor. Afinal, seria legal ter um
troféu de lembrança da situação toda. Pegou o baralho e pagou à
senhora. Antes de sair, ela arrancou-lhe mais alguns trocados em
troca de um manual de como se fazer as previsões.
A noite foi de farra e
diversão. Alain logo virou o centro das atenções com suas cartas e
vaticínios, os quais ele fazia numa imitação muito boa de sotaque
cigano, como visto nos filmes. Ao fim da festa, pegou um taxi em foi
para casa.
Largou o baralho na mesa
de cabeceira da cama e foi tomar banho. Quando voltou, preparava-se
para dormir quando deixou o olhar recair sobre o baralho.
Lembrava-se disso agora e
se dava conta do quão errada tinha sido a decisão que tomara a
seguir. Será que tivera escolha? Afinal destino é destino.... Mas
não, isso era loucura. As pessoas ao seu redor no metrô seguiam
absortas em seus próprios problemas, inconscientes do que se passava
com Alain. Ele tirou três cartas, e eram as mesmas que havia tirado
no momento em que olhara para o baralho em sua mesa de cabeceira
durante a madrugada.
A princípio aquilo mais o
divertira do que assustara. Chegara a pensar que era “um final
dramático para uma noite daquelas”. Então recolocara as cartas no
baralho, embaralhou de qualquer maneira e tirou novamente três
cartas aleatoriamente. Eram as mesmas.
“Ok, isso certamente é
uma anomalia probabilística, ou algo assim, nada demais.” Mas seu
coração já batia acelerado. Repôs as cartas, embaralhou, e
retirou mais uma vez um trio, novamente as mesmas três cartas.
Devia estar louco, vendo
coisas, aquilo devia ser efeito do álcool e das outras coisas que
seus amigos usavam e que, através da fumaça, acabava compartilhando
da viagem. Tentou se concentrar e retirou trẽs cartas novamente, e
o trio reaparecia como das outras vezes. Tocou o baralho contra a
parede e foi para a cozinha tomar um copo d'água para se acalmar.
Já recomposto, voltou
para o quarto. Todas as cartas estavam espalhadas e viradas para
cima, exceto três. A calma foi embora.
Recolheu suas coisas e foi
para o metrô. O baralho, é claro, levara junto.
Agora olhava para as
cartas em sua mão, pensando em quão absurdo aquilo tudo estava
sendo. “Essas coisas não existem!”. As cartas, no entanto,
teimavam em prever sempre a mesma coisa. Retirou trẽs cartas, já
não se surpreendeu quando eram as mesmas, e as repôs atrás do
baralho. Não embaralhou dessa vez, e retirou trẽs cartas de cima.
Seu coração perdeu um compasso quando viu que eram as mesmas. Mas
não as havia posto na parte final do baralho? Verificou, e não
estavam lá, onde encontrou três outras cartas quaisquer. Isso era
loucura. Devia estar ficando louco.
Olhava ao redor, e não
encontrava solução no rosto de nenhum dos passageiros
característicos que lhe acompanhavam no metrô àquela hora.
Inconscientemente sabia que todos ali estavam ligados a ele pelas
cartas. O drogado que estava jogado no banco da frente como um saco
de bosta, o grupo de adolescentes querendo parecer adultos que
tomavam energético misturado com alguma outra coisa fedorenta que
não conseguia identificar, o mendicante que tinha sofrido um
acidente de trabalho e que pedia por favor, por favor, um trocado
qualquer, tenho família e ninguém quer dar trabalho para um velho
necrosado como eu. Todos seguiam
como se nada fosse acontecer, mas Alain sabia da verdade. As cartas
não mentem.
Quando
soou o freio e todos foram jogados para frente pela inércia, Alain
deixou sem querer as cartas voarem de suas mãos. Enquanto todos
gritavam e em algum lugar iniciava-se um incêndio por causa do
choque entre os dois vagões que estavam, em um erro de cálculo,
indo um contra o outro pelos mesmos trilhos, Alain via passar diante
de seus olhos as três cartas que lhe perseguiam e cuja combinação
significavam apenas uma coisa, uma coisa que no momento derradeiro
tomou sua mente e o fez esquecer toda a balbúrdia ao redor:
A
Morte.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Os Esbarros de Sábado à Noite
Quem me conhece sabe
que eu sou um cara totalmente contra violência. Desde pequeno fui
ensinado que resolver um problema diplomaticamente não só é melhor
para a saúde como também nos torna superiores. Além disso, não
sou só contra a violência física, também evito a todo custo
discussões em que as paixões fiquem muito a flor da pele, um
terreno em que as inimizades podem crescer livremente. Sempre que
estou discutindo alguma coisa, quando vejo que a coisa tá ficando
feia já aciono meu lado apaziguador, posso até mesmo admitir a
razão do outro se eu ver que isso vai evitar um bate-boca
desnecessário. Às vezes me acho um banana por causa disso, mas se
esse é o preço de ser gentil, não vejo alternativa a não ser
pagar.
Todos esses ideais foram testados no sábado. Fui convidado para ir numa boate aqui de Novo Hamburgo, recém reaberta, para comemorar o aniversário de duas amigas. Estava tudo muito bom, o lugar ficou realmente mais bonito depois de reformado, a gente tinha mesa, ganhou champanhe, e até ganhamos uma garrafa de vodka sabor maçã verde que me fez voltar a gostar de vodka. Que vodka boa.
Até que... (se não fossem todos esses “até que...” a vida seria muito boa, não? Só alegria, só festa, todo mundo sorrindo, unicórnios dourados galopando no arco-íris, etc.)... até que abriram a pista. Antes disso estávamos no pub ingerindo quantidades razoáveis de álcool. Fomos, faceiros com a perspectiva de assustar um pouco do frio, para a pista de dança. Mas logo percebemos que aquilo não era uma pista de dança, estava mais é para carrinho choque. Sabem, aquele brinquedo do parque de diversões em que o objetivo é chocar-se contra os outros? Pois é, o que vivemos na pista de dança no sábado foi uma versão genérica disso, só que sem o carro e sem as diversões.
Na primeira vez que me empurraram, nem notei. Isso é meio comum em boates, as pessoas esbarram nas outras. Na segunda vez, comecei a ficar desconfortável. Lá pelas tantas, a sensação é que não conseguia embalar um passo de dança sem ser atingido por algum filho da p*ta que aparentemente tinha algo muito importante a fazer em algum outro ponto da festa, onde para chegar tinha que, inevitavelmente, passar exatamente por onde eu estava (tentando) dançar.
A cada esbarrão, eu torcia um pouquinho mais meu pâncreas na tentativa de aplacar a raiva que borbulhava dentro do meu ser. Os piores momentos foram aqueles em que os desconhecidos esbarravam (e pra valer!) nas garotas do nosso grupo. Ah, nesse momento subia o sangue para os olhos, e sentíamos eu e meus parceiros uma reação sub-reptiliana que nos fazia sentir vontade de arrastar a cabeça do sujeito que tinha esbarrado nas nossas garotas no asfalto, até que sobrasse só o cupim da sua cara de pau.
Mesmo nesses momentos, nosso lado pacífico se sobressaía e evitava a catástrofe. Como eu disse, sou muito da paz. A única vez, na verdade, que fui às vias de fato com alguém foi na terceira série.
Não lembro os motivos, as razões nem as circunstâncias da briga, só lembro que foi no meio do pátio da escola. Provavelmente era por causa de guria, porque (pasmem) até a quarta-série eu era uma versão mini de um galã de cinema; nesses tenros anos da infância, a inteligência ainda é atrativa para o gênero feminino. Infelizmente isso muda a partir da quinta série, em que as gurias passam a preferir o tipo sem-futuro que se dependura nos muros da escola na hora do recreio. Dizem que em algum momento entre o ensino médio e os 30 anos elas voltam a preferir os bons partidos, mas por enquanto isso é mito. Oremos.
Enfim, ignorando os motivos, lembro de estar frente a frente com meu então inimigo declarado no meio do pátio. Nos olhávamos diretamente nos olhos, e ficamos circulando algum tempo um ao outro, como achávamos que deveria ser o jeito certo de começar uma briga. Os passantes se aglomeravam e as professoras que deveriam estar cuidando para que esse tipo de coisa não acontecesse provavelmente estavam na sala do cafezinho nos dando um pouco de privacidade. Fui para cima, que nunca tive muita paciência para esperas desnecessárias. Dei um chute, em seguida um empurrão e caímos ambos no chão de areia e brita. E foi assim a grande briga da minha vida.
Muito mais tarde, fiz aulas de taekwondo, de forma que acabei participando de lutas novamente, mas sem o objetivo de tirar sangue nem nada. Apesar de ter me dado mais know-how de como machucar com um chute, a experiência com o taekwondo me fez, como eu acho que a maioria das artes marciais faz com seus praticantes, abominar ainda mais a violência.
E foi por isso que no sábado, quando pela trigésima vez éramos empurrados, eu reuni todas as minhas forças para combater as imagens que passavam diante dos meus olhos, de sangue, luta e morte. Tive que combater os instintos mais primitivos do ser humano, que surgiram na espécie em tempo imemoriais, quando os australopitecos iam nas boates e eram empurrados e resolviam a situação canibalizando metade da tribo adversária. Não foi fácil.
Quando percebemos que não aguentaríamos mais muito tempo, voltamos para o pub. Terminamos a festa lá, rindo da coisa toda. Da próxima vez, vamos tentar ficar mais nos cantos da festa, onde deve ter menos gente querendo passar.
O que se aprendeu foi que é possível manter a civilidade sob pressões muito altas e que não é preciso recorrer a nenhum tipo de violência quando te empurram na boate.
Ou talvez a um ou dois pontapés.
Todos esses ideais foram testados no sábado. Fui convidado para ir numa boate aqui de Novo Hamburgo, recém reaberta, para comemorar o aniversário de duas amigas. Estava tudo muito bom, o lugar ficou realmente mais bonito depois de reformado, a gente tinha mesa, ganhou champanhe, e até ganhamos uma garrafa de vodka sabor maçã verde que me fez voltar a gostar de vodka. Que vodka boa.
Até que... (se não fossem todos esses “até que...” a vida seria muito boa, não? Só alegria, só festa, todo mundo sorrindo, unicórnios dourados galopando no arco-íris, etc.)... até que abriram a pista. Antes disso estávamos no pub ingerindo quantidades razoáveis de álcool. Fomos, faceiros com a perspectiva de assustar um pouco do frio, para a pista de dança. Mas logo percebemos que aquilo não era uma pista de dança, estava mais é para carrinho choque. Sabem, aquele brinquedo do parque de diversões em que o objetivo é chocar-se contra os outros? Pois é, o que vivemos na pista de dança no sábado foi uma versão genérica disso, só que sem o carro e sem as diversões.
Na primeira vez que me empurraram, nem notei. Isso é meio comum em boates, as pessoas esbarram nas outras. Na segunda vez, comecei a ficar desconfortável. Lá pelas tantas, a sensação é que não conseguia embalar um passo de dança sem ser atingido por algum filho da p*ta que aparentemente tinha algo muito importante a fazer em algum outro ponto da festa, onde para chegar tinha que, inevitavelmente, passar exatamente por onde eu estava (tentando) dançar.
A cada esbarrão, eu torcia um pouquinho mais meu pâncreas na tentativa de aplacar a raiva que borbulhava dentro do meu ser. Os piores momentos foram aqueles em que os desconhecidos esbarravam (e pra valer!) nas garotas do nosso grupo. Ah, nesse momento subia o sangue para os olhos, e sentíamos eu e meus parceiros uma reação sub-reptiliana que nos fazia sentir vontade de arrastar a cabeça do sujeito que tinha esbarrado nas nossas garotas no asfalto, até que sobrasse só o cupim da sua cara de pau.
Mesmo nesses momentos, nosso lado pacífico se sobressaía e evitava a catástrofe. Como eu disse, sou muito da paz. A única vez, na verdade, que fui às vias de fato com alguém foi na terceira série.
Não lembro os motivos, as razões nem as circunstâncias da briga, só lembro que foi no meio do pátio da escola. Provavelmente era por causa de guria, porque (pasmem) até a quarta-série eu era uma versão mini de um galã de cinema; nesses tenros anos da infância, a inteligência ainda é atrativa para o gênero feminino. Infelizmente isso muda a partir da quinta série, em que as gurias passam a preferir o tipo sem-futuro que se dependura nos muros da escola na hora do recreio. Dizem que em algum momento entre o ensino médio e os 30 anos elas voltam a preferir os bons partidos, mas por enquanto isso é mito. Oremos.
Enfim, ignorando os motivos, lembro de estar frente a frente com meu então inimigo declarado no meio do pátio. Nos olhávamos diretamente nos olhos, e ficamos circulando algum tempo um ao outro, como achávamos que deveria ser o jeito certo de começar uma briga. Os passantes se aglomeravam e as professoras que deveriam estar cuidando para que esse tipo de coisa não acontecesse provavelmente estavam na sala do cafezinho nos dando um pouco de privacidade. Fui para cima, que nunca tive muita paciência para esperas desnecessárias. Dei um chute, em seguida um empurrão e caímos ambos no chão de areia e brita. E foi assim a grande briga da minha vida.
Muito mais tarde, fiz aulas de taekwondo, de forma que acabei participando de lutas novamente, mas sem o objetivo de tirar sangue nem nada. Apesar de ter me dado mais know-how de como machucar com um chute, a experiência com o taekwondo me fez, como eu acho que a maioria das artes marciais faz com seus praticantes, abominar ainda mais a violência.
E foi por isso que no sábado, quando pela trigésima vez éramos empurrados, eu reuni todas as minhas forças para combater as imagens que passavam diante dos meus olhos, de sangue, luta e morte. Tive que combater os instintos mais primitivos do ser humano, que surgiram na espécie em tempo imemoriais, quando os australopitecos iam nas boates e eram empurrados e resolviam a situação canibalizando metade da tribo adversária. Não foi fácil.
Quando percebemos que não aguentaríamos mais muito tempo, voltamos para o pub. Terminamos a festa lá, rindo da coisa toda. Da próxima vez, vamos tentar ficar mais nos cantos da festa, onde deve ter menos gente querendo passar.
O que se aprendeu foi que é possível manter a civilidade sob pressões muito altas e que não é preciso recorrer a nenhum tipo de violência quando te empurram na boate.
Ou talvez a um ou dois pontapés.
PS1: você não veio parar no blog errado. Estou apenas experimentando alguns layouts, e nenhum animal será ferido no processo.
PS2: esse texto eu criei depois do desafio lançado pela Fê Probst no blog dela. O desafio consiste em escrever um texto quemomentista, isto é, seguindo o estilo do meu amigo Antônio, cujos escritos recentemente viraram livro. É claro que não se compara, e eu não sei dizer se o texto está bem quemomentista mesmo, mas a tenteada é gratuita e foi divertido! Quem quiser conhecer o trabalho do Antônio pode verificar aqui no Que Momento, blog dele, e recomendo fortemente que o façam, não é por ser meu amigo, é que o cara é fera mesmo ;)
PS2: esse texto eu criei depois do desafio lançado pela Fê Probst no blog dela. O desafio consiste em escrever um texto quemomentista, isto é, seguindo o estilo do meu amigo Antônio, cujos escritos recentemente viraram livro. É claro que não se compara, e eu não sei dizer se o texto está bem quemomentista mesmo, mas a tenteada é gratuita e foi divertido! Quem quiser conhecer o trabalho do Antônio pode verificar aqui no Que Momento, blog dele, e recomendo fortemente que o façam, não é por ser meu amigo, é que o cara é fera mesmo ;)
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Cabeça de Pedra Polida
E o
desenvolvimento não se deu apenas no âmbito físico. No mundo das ideias
avançamos também, e não só na ciência que é diretamente necessária para haver
toda essa parafernália tecnológica da qual somos cada vez mais dependentes.
Afiamos nossa percepção de mundo e moldamos os conceitos para se adaptar àquilo
que consideramos como “mais humano”.
É por isso que
algumas coisas ainda me surpreendem, me tiram do sério, me deixam puto e com
vontade de socar alguém.
Recentemente o
pastor Silas Malafaia esteve naquele programa de entrevistas da Gabi. O banzé
que se seguiu era esperado. Uma pessoa simplesmente não pode aparecer na TV
falando o monte de asneiras que ele falava sem causar algum rebuliço.
“Mas Marcus,
qual o problema dele ter a opinião dele?”
Ele ter a
opinião dele é claro que não é problema. Cada um tem, afinal, a porcaria de
opinião que quiser, e vivemos em um país em que cada um pode escolher de que
forma deseja estar errado. Parte do problema que está relacionado com ele é a
total falta de ética intelectual com que defende seu ponto de vista. Um discurso
do dito é simplesmente um Minicurso de como vencer uma discussão sem
necessariamente ter razão. Não vou falar de falácias aqui, há lugares nainternet que discorrem longamente sobre o assunto. O que é importante saber é
que falácias não são coisas que se usam em uma discussão em que ambos os lados
desejam, sobre todas as coisas, que a Verdade seja alcançada. As falácias se
usam quando outros interesses estão envolvidos, seja ego, política ou dinheiro.
Um ponto
interessante da entrevista do Malafaia é que ele gerou polêmica, mas isso foi
benéfico. No meio da poeira e do fogo cruzado, surgiram vários vídeos (aqui e aqui) dissecando os argumentos que ele usou para sustentar sua posição, e os poucos
que eu vi são muito bons. E se uma coisa tem subprodutos bons (isto é, traz à
tona pessoas dispostas a esclarecer o assunto para aquelas dispostas a
esclarecer-se a si mesmas), não foi de todo ruim.
Isso me leva
ao outro problema relacionado com a opinião do pastor. A repercussão que ela
tem. Isto é, se o Marcus fala sobre um assunto no blog dele, quem é atingido?
Poucas pessoas. Agora, se o pastor fala sobre algo, isso atinge muita gente.
Esse pastor em especial entra na casa de milhões de famílias várias noites para
falar de Deus e do que é certo e errado. Ele próprio pode não agredir um
homossexual; mas o que dizer de todos aqueles que o ouvem falar? Esses, se não
acabam agredindo diretamente, no fim fortalecem a grande massa de pessoas do
“não tenho nada contra, mas...”.
Mas ok, esse
segundo problema pode ser questão de liberdade religiosa. Esse é um campo
perigoso. Cada religião tem seus pontos de caráter duvidoso, isso não é uma
exclusividade dos evangélicos. A Igreja Católica é contra métodos
contraceptivos, mesmo em casos de superpopulação e de epidemia de DSTs. Algumas
religiões são contra tratamentos com transfusão de sangue. Teve aquele grupo
que cometeu suicídio coletivo na passagem de um cometa perto da Terra.
Enfim, é
próprio das religiões esses pontos com os quais os demais não concordam. E não
podemos chegar para essas pessoas e dizer que elas estão erradas; tecnicamente,
elas podem estar certas. No assunto da homossexualidade, de fato existem
passagens bíblicas que condenam o ato de um homem dormir com outro homem (todos
sabemos o que “dormir com” significa nesse contexto). E se partirmos do
pressuposto de que somos inferiores a Deus, que Deus tem seus motivos para ter
feito as coisas como são, e que a Bíblia é a palavra de Deus, não temos opção
se não aceitar o que está escrito nela. Se não aceita, você pode simplesmente
não considerar-se parte do grupo que aceita. Ou pode ir para outro que
interprete a coisa toda de forma diferente.
O que eu quero
dizer é que o Silas tem direito de acreditar no que acredita, e de professar
sua fé para aqueles dispostos a ouvi-la. O que ele não pode fazer é mexer na
sociedade das pessoas que não acreditam no mesmo que ele. Ele pode odiar isso,
mas existem pessoas no Brasil que não são evangélicas e – isso ele deve achar
um verdadeiro absurdo – nem cristãs!
Como muito bem
disse Barack Obama em um dos seus discursos depois da sua primeira eleição, a
sociedade deve ser dirigida com base naquilo que todos nós podemos ver. A César
o que é de César! Da mesma forma que nós não podemos fazer nada em relação ao
que o Silas acredita, ele não pode nos impor isso, como,
por exemplo, ele gostaria de fazer ao pressionar
o Conselho de Psicologia no sentido de voltar a considerar a homossexualidade
como uma condição tratável. Isso é um absurdo! A mesma forma de pensar que
levou a Psicologia a considerar a homossexualidade como uma característica e
não como uma doença foi aquela que nos prolongou a longevidade em pelo menos 40
anos, que nos deu a praticidade do microondas e (mais uma vez) essa maravilha
que é o shuffle nos aparelhos de ouvir música. O método científico funciona, e
não é porque muita gente acredita no contrário que devemos dar ouvidos ao que
eles têm a dizer.
Como eu disse,
nós avançamos muito. Mas fatos como a abertura das pernas do estado laico e as
escolhas que as pessoas no comando tem feito ultimamente para cargos que poderiam
fazer o pensamento avançar... esses fatos tem me feito pensar que, na verdade,
ainda não saímos das cavernas.
Assinar:
Postagens (Atom)